Esta foto é da Praça Antero Neves, porem muito antiga. Esta Praça, hoje está bem mudada, mas a história foi escrita em 2002
No que
deu a tentativa de ajudar o Lira...
Lira saiu na manhã
daquele domingo com o coração apertado, porque passara toda a noite pensando na
evidente deterioração de seu automóvel.
Pois este, estava sem o vidro traseiro desde aquele trágico desfile do
dia sete de setembro. E o que mais o inquietava, era saber que como sua
situação financeira não melhorava, e a estação das chuvas estava
para começar, seu carro então teria que ser recolhido a uma garagem.
Muito nobre de sentimentos e religioso por tradição,
gostava muito de ouvir a Rádio Canção Nova, de Cachoeira Paulista.. E já na rua Sete, caminhando rumo à rodoviária,
ligou seu rádio portátil, que sempre o trazia pendurado ao pescoço. Quando
atravessou a linha férrea, que com seus trilhos corta a cidade de Cruzeiro
quase ao meio, a musica que ouvia com atenção, foi interrompida. E
imediatamente o locutor então começou uma entrevista curiosa, que ele até
aumentou o volume para não perder uma só palavra. O radialista então dizia:
--- E agora meus irmãos e minhas
irmãs, vocês ouvirão uma entrevista que
fiz com um deficiente físico...
Ao ouvir isso Lira
não se contentou em aumentar o volume do rádio somente, mas pegou-o com as duas
mãos e levantou-o até a altura do peito. A entrevista se passava no studio da
emissora, e o entrevistado era um rapaz cego de nascença.
--- Como você vê o mundo?.
Perguntou o locutor
--- Á medida que vamos crescendo,
nos são comunicados várias coisas... sei por exemplo que existe o dia e a
noite. Sei que de dia se trabalha e á noite se dorme. A noite eu percebo com
muito conhecimento, porem o dia ou até mesmo a palavra “claro”, eu entendo mas
não tenho noção nenhuma. Respondeu o entrevistado.
--- Você se sente frustrado?.
Inquiriu o repórter.
--- Seria demagogia minha se
dissesse que não, mas , se eu tivesse
perdido a visão, aí sim seria muito mais difícil aceitar essa realidade. Agora,
como você pode falar que gosta de caju, se
você nunca comeu?.
E a entrevista continuou por mais tempo, e quanto mais ela
se estendia, mais o Lira ia se condoendo da infelicidade do pobre rapaz. Quando
ela terminou, ele já estava na praça junto da “Banca do Lourenço”, onde todo
domingo ia na parte da manhã, comprar seu jornal.
Atendido que foi pelo nosso querido jornaleiro, Lira
colocou o jornal debaixo do braço, e se encaminhou para o seu banco predileto,
que fica na área central da praça, em frente a fonte luminosa. Local este,
onde todos os domingos, passa quase a
manhã pondo sua “cultura” em dia.
Enquanto caminhava para se sentar neste banco, Lira foi
pensando naquela entrevista que acabara de ouvir, e que muito o comovera. E
pensava. É... deve ser muito esquisito
não poder enxergar nada... olha estas árvores... que coisa mais linda... os
pássaros... olha só que beleza...
E neste enlevo sentou-se e logo começou a desfrutar a
leitura do seu jornal.
Luís e Jaci, já tinham proposto ao amigo por várias
vezes, ajudá-lo nas despesas para o conserto do seu carro. Só que o Lira nunca
aceitou essa ajuda, porque alegava não ter sido culpa deles o que acontecera e
sim, que o vidro do seu carro já se encontrava um pouco folgado na guarnição, e
fatalmente acabaria caindo mesmo sozinho. Entretanto o Jaci, dono de um coração
maior que ele, havia dias que estudava uma forma de ajuda-lo sem que ele
ficasse sabendo. E nesta manhã de Domingo, ainda em sua residência, sentiu que
a sua “luzinha acendera”, e de pronto
foi até a casa do Luís Paulo, afim de contar pra ele sua mais nova ideia.
--- Acho que
achei a saída para ajudar o Lira. Disse Jaci, ao chegar.
--- Vê lá
hein!... a última vez que você teve uma ideia, nós tivemos que nadar um
bocado..., replicou o Luís.
--- Não...
esta ideia é muito boa.... veja bem.... nós pegamos o dinheiro e o colocamos na
rua por onde ele vai passar. E tomamos todo cuidado para certificarmos de que
realmente ele vai achar. Completou o Jaci seu raciocínio.
--- É... é...
parece ser uma boa ideia... é... e ele achando, não vai ficar sabendo que o
dinheiro é nosso. Concordou o Luís.
---
Precisamos agora, é descobrir um lugar onde ele vai com freqüência, para
executarmos o plano. Disse o Jaci.
--- Isto é
mole, interviu o Luís. E completou. Pode ir lá na praça agora que você o
encontra, já esqueceu que todo Domingo ele passa a manhã inteira sentado
naqueles bancos?
--- É
mesmo... eu tinha me esquecido. Respondeu o gordinho, e convidou em seguida. Então o que estamos esperando?
--- Espere
aí... você teve a ideia e eu achei o jeito de executa-la, mas... acho que está
faltando o principal... o dinheiro. Posicionou o Luís.
--- É... mas
eu estive pensando quem sabe a gente dá uma parada nesses goles, por uns
tempos... afinal, nós temos o dever de pelo menos ajudar... falou o Jaci.
--- É... mas, “esses uns tempos” aí, é que eu não estou gostando nada. Acho que é muito tempo...
talvez o Warte meu genro, quem sabe... ele gosta muito de puxar o meu saco...
ás vezes ele me empresta, e depois a gente paga
em “suaves prestações”, quê que você acha?... ele não vai nem perguntar
o que vou fazer com o dinheiro... deixa comigo.
E falando assim o Luís foi
para dentro de sua casa afim de falar com “o seu caixa forte”. Jaci ficou ali
no jardim da casa a espera do amigo. Bastou o Luís entrar e Da. Mariinha,
esposa do Luís, apareceu.
--- Olá “seu”
Jaci..., cumprimentou ela assim que chegou.
--- Bom dia Da. Mariinha...como vai a senhora?
--- Bem...
graças a Deus... foi bom o senhor aparecer, eu estava querendo fazer umas
perguntinhas pro senhor. Disse ela, com um ar de desconfiada.
--- Ah é?...,
mais sem jeito ficou o Jaci, e pensou “lá vem chumbo grosso”.
--- Sabe
“seu” Jaci... o quê que está acontecendo com o Luís Paulo?... ele tem chegado
em casa todo “estrupiado”, quase toda noite?
--- Não sei,
não... eu não tenho visto nada, não... Disse ele, tentando se esquivar do fogo
direto dela, por que desconhecia o teor das desculpas que o Luís tinha dado. E
continuou. ... ele tem um probleminha com o joelho, não será isso não?...
--- Bom isso
lá é verdade, disse ela, e continuou. ...mas e a noite que ele chegou todo
molhado, falando que caiu numa fossa no caminho da fábrica? Não existe fossa no
caminho da fábrica? Perguntou ela.
--- há há,
essa não... essa não... Jaci começou a rir, enquanto pensava em alguma coisa.
... essa não... há há há....aquele dia... há há há. Sabe Da. Mariinha, aquele
dia ele estava passando mal do
intestino, e achou que era gases... há há há.... ele deve ter dado esta
desculpa por vergonha da família.... aliás eu até peço para a senhora não falar
com ele, nada do que eu estou falando... ele pode ficar com raiva de mim. disse o Jaci, doido
para o Luís aparecer logo.
E mal acabou ele de falar, o
Luís apareceu e foi logo chamando o amigo para sair.
--- Pronto
companheiro, vamos se não fica tarde para encontrar o Lira na praça.
E com a chegada dele, o
assunto entre Da. Mariinha e o Jaci, se interrompe de vez, e o Jaci se
despedindo rapidamente dela, saiu com o Luís.
Enquanto caminhavam pela rua
Oito, Jaci ia contando para o Luís, o “sufoco” que tinha passado com a esposa
dele. E ao mesmo tempo, afirmava também
sua decisão de não ir mais à sua casa, porque a continuar assim, ainda ia se
dar mal com as perguntas dela. Luís muito calmo, concordava com ele, e tranquilizava-o, dizendo que estava tudo bem e que mulher é assim mesmo, gosta
de saber de tudo, mas esquece também com muita facilidade.
E conversando, chegaram então na esquina da
rua Major Novaes. Luís então, aproveitando a proteção do muro, chegou na
esquina para ver se o nosso amigo ainda se encontrava na praça. E permanecendo nesta posição, somente virou o rosto para trás e confirmou
para o Jaci que o amigo ainda se
encontrava sentado no banco de sempre. Aí então, começaram a formular o plano.
Disse então o Luís.
--- Numa reta
entre ele e nós, existem três bancos de cimento, se formos agachados a partir
daqui, dá para chegarmos mais perto, sem
que ele nos note. E assim então fizeram,
agacharam e andando agachados, atravessaram a rua major Novaes, e se
esconderam atrás do primeiro banco. Esperaram um pouco para descansar, porque
andar agachado não é tarefa para qualquer um não, e eles já não estavam mais
com idade para isso. Enquanto descansavam,
o Jaci então falou:
--- Olha
Luís, o plano é o seguinte: nós vamos para aquele segundo banco ali, aquele que
tem dois sacos de lixo encostado nele. Como você tem problema com este seu
joelho, você fica me esperando ali. Eu vou passar direto para colocar o
dinheiro na frente dele, e volto em seguida para ficar junto com você, neste
segundo banco. Ok?
--- Certo.
Disse o Luís.
E assim fizeram, os dois
saíram em marcha de ganso, o Luís parou no segundo banco e se escondeu. E o
Jaci foi até próximo ao Lira, aproveitando a proteção do jornal que o amigo
estava lendo, e depositou o dinheiro no chão, retornando em seguida conforme
combinado. Quando o Jaci chegou no banco que já se encontrava o Luís, chegou
junto com ele um convidado inesperado, um cachorro que logo começou a cheirar o
Lixo. Luís quis enxota-lo, com medo dele atrair a atenção do Lira e estragar
tudo. Porem o Jaci não concordou, porque o Lira já estava começando a fechar o
jornal e qualquer deslize agora, podia colocar em xeque, todo o plano. Luís
então se conteve e começou a prestar atenção nos movimentos do amigo sortudo.
Lira por sua vez, fechou o
jornal e ficou pensando naquela entrevista que ouvira no rádio, quando chegara
na praça.
--- Coitado
do rapaz.... deve ser muito penoso ser um cego... Olha só o sol.... que
maravilha poder vê-lo... o verde do gramado...veja... que maravilha...
E com estes pensamentos,
levantou-se e começou a caminhar em direção ao dinheiro, atrás dele vinha
também um engraxate, com sua caixa no ombro.
Os dois amigos que estavam
ali atrás do segundo banco, começaram a ficar inquietos, diante da
possibilidade do garoto, passar à frente do Lira, e pegar o dinheiro. E
começaram a se interrogarem, se deveria ou não interromper a operação, mesmo
porque eles já estavam preocupados com o barulho que o cachorro estava fazendo,
com os sacos de lixo.
--- Não é
possível que aquele “babaca”, vai deixar o moleque passar à sua frente.. não é
possível. Disse o Jaci, já vermelho de raiva , porque o Lira já estava perto e
não via o dinheiro no chão.
O Lira coitado, andando
esbarra o pé no maço de dinheiro, como se o chutasse, e passa por ele. Jaci
então leva as mãos na cabeça e o Luís esbraveja.
--- Filho...
ele passou... o menino vai pegar o dinheiro... e falando isso ele se agita, e
esbarra o pé no cachorro, que tinha acabado de achar um osso saboroso no lixo.
Este, rosna feio e parte para cima dos dois, que se embolam numa acirrada luta.
E enquanto isso o garoto pega o dinheiro, e com medo do dono aparecer, “cai no
mundo com ele”. E o pobre do lira continua sua caminhada em direção a rua Sete.
Os dois gladiadores finalmente conseguem se livrar da fera. E o saldo não é
nada animador. Luís tinha sido mordido no joelho, e justo no joelho encrencado.
E com suas roupas rasgadas, ajudava o gordinho, que tinha além de marcas de
dentes na testa, tinha também fortes arranhões nos braços.
--- Vamos
Luís... vamos ver se pegamos aquele rapazinho... disse o Jaci.
--- Bem que
eu queria pega-lo, mas pra onde ele foi... o pior é que estamos machucados, com
as roupas rasgadas e sem o dinheiro... e onde está aquele desgraçado do Lira...
--- Já vai
ali na frente... respondeu o Jaci.
--- Ô
Lira!.... ô Lira!... gritou o Luís, e fazendo gestos com a mão para que ele
parasse. E ele parou na esquina da praça e ficou aguardando os dois inesperados
amigos. Mas quando ele viu o estado que eles estavam, foi logo achando graça. E
falou:
--- Ainda bem
que “nesta” eu não estava... há, há, há.
O Luís, que já estava “por
aqui”, com ele, foi logo retalhando.
--- Ah!...
mas eu juro que você vai entrar “nesta”, se não me der uma boa resposta...
--- É Lira...
o que você fez para vir daquele banco até aqui, e não pegar aquele dinheiro que
estava no chão, bem na sua frente?. Disse o Jaci.
--- Hein!...
dinheiro na minha frente... eu não vi nenhum dinheiro, não... Respondeu o Lira.
--- É... bem
na sua frente?, disse o Luís, querendo esganar o Lira.
--- Olha eu
juro que não vi nada... é que quando eu saí daquele banco, eu andei um bom
pedaço, com os olhos fechados para sentir como é difícil ser um cego... deve
ser por isso que eu não vi o dinheiro que vocês estão falando... E voltando
para os dois, perguntou. E vocês?... porque não pegaram?...
Jaci então olhou para o Luís,
e falou:
--- Vamos
embora Luís... se não eu vou querer saber também, como uma pessoa pode ficar
cega por uma semana inteira.
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