domingo, 9 de outubro de 2016

No que deu a tentativa de ajudar o Lira...

Em Aventuras Pickwickianas...


Esta foto é da Praça Antero Neves, porem muito antiga.
Esta Praça, hoje está bem mudada, mas a história foi escrita em 2002

 

       No que deu a tentativa de ajudar o Lira...

 

 

 

Lira saiu na manhã daquele domingo com o coração apertado, porque passara toda a noite pensando na evidente deterioração de seu automóvel.  Pois este, estava sem o vidro traseiro desde aquele trágico desfile do dia sete de setembro. E o que mais o inquietava, era saber que como sua situação financeira não melhorava, e a estação das chuvas  estava  para começar, seu carro então teria que ser recolhido a uma garagem.

Muito nobre de sentimentos e religioso por tradição, gostava muito de ouvir a Rádio Canção Nova, de Cachoeira Paulista.. E  já na rua Sete, caminhando rumo à rodoviária, ligou seu rádio portátil, que sempre o trazia pendurado ao pescoço. Quando atravessou a linha férrea, que com seus trilhos corta a cidade de Cruzeiro quase ao meio, a musica que ouvia com atenção, foi interrompida. E imediatamente o locutor então começou uma entrevista curiosa, que ele até aumentou o volume para não perder uma só palavra. O radialista então dizia:
--- E agora meus irmãos e minhas irmãs, vocês ouvirão uma entrevista  que fiz com um deficiente físico...
Ao ouvir isso  Lira não se contentou em aumentar o volume do rádio somente, mas pegou-o com as duas mãos e levantou-o até a altura do peito. A entrevista se passava no studio da emissora, e o entrevistado era um rapaz cego de nascença.
--- Como você vê o mundo?. Perguntou o locutor
--- Á medida que vamos crescendo, nos são comunicados várias coisas... sei por exemplo que existe o dia e a noite. Sei que de dia se trabalha e á noite se dorme. A noite eu percebo com muito conhecimento, porem o dia ou até mesmo a palavra “claro”, eu entendo mas não tenho noção nenhuma. Respondeu o entrevistado.
--- Você se sente frustrado?. Inquiriu o repórter.
--- Seria demagogia minha se dissesse  que não, mas , se eu tivesse perdido a visão, aí sim seria muito mais difícil aceitar essa realidade. Agora, como  você pode falar que gosta de caju, se você nunca comeu?.
E a entrevista continuou por mais tempo, e quanto mais ela se estendia, mais o Lira ia se condoendo da infelicidade do pobre rapaz. Quando ela terminou, ele já estava na praça junto da “Banca do Lourenço”, onde todo domingo ia na parte da manhã, comprar seu jornal.
Atendido que foi pelo nosso querido jornaleiro, Lira colocou o jornal debaixo do braço, e se encaminhou para o seu banco predileto, que fica na área central da praça, em frente a fonte luminosa. Local este, onde  todos os domingos, passa quase a manhã pondo sua “cultura” em dia.
Enquanto caminhava para se sentar neste banco, Lira foi pensando naquela entrevista que acabara de ouvir, e que muito o comovera. E pensava.  É... deve ser muito esquisito não poder enxergar nada... olha estas árvores... que coisa mais linda... os pássaros... olha só que beleza...
E neste enlevo sentou-se e logo começou a desfrutar a leitura do seu jornal.

Luís e Jaci, já tinham proposto ao amigo por várias vezes, ajudá-lo nas despesas para o conserto do seu carro. Só que o Lira nunca aceitou essa ajuda, porque alegava não ter sido culpa deles o que acontecera e sim, que o vidro do seu carro já se encontrava um pouco folgado na guarnição, e fatalmente acabaria caindo mesmo sozinho. Entretanto o Jaci, dono de um coração maior que ele, havia dias que estudava uma forma de ajuda-lo sem que ele ficasse sabendo. E nesta manhã de Domingo, ainda em sua residência, sentiu que a sua “luzinha acendera”,  e de pronto foi até a casa do Luís Paulo, afim de contar pra ele sua mais nova ideia.
--- Acho que achei a saída para ajudar o Lira. Disse Jaci, ao chegar.
--- Vê lá hein!... a última vez que você teve uma ideia, nós tivemos que nadar um bocado..., replicou o Luís.
--- Não... esta ideia é muito boa.... veja bem.... nós pegamos o dinheiro e o colocamos na rua por onde ele vai passar. E tomamos todo cuidado para certificarmos de que realmente ele vai achar. Completou o Jaci seu raciocínio.
--- É... é... parece ser uma boa ideia... é... e ele achando, não vai ficar sabendo que o dinheiro é nosso. Concordou o Luís.
--- Precisamos agora, é descobrir um lugar onde ele vai com freqüência, para executarmos o plano. Disse o Jaci.
--- Isto é mole, interviu o Luís. E completou. Pode ir lá na praça agora que você o encontra, já esqueceu que todo Domingo ele passa a manhã inteira sentado naqueles bancos?
--- É mesmo... eu tinha me esquecido. Respondeu o gordinho, e convidou em  seguida. Então o que estamos esperando?
--- Espere aí... você teve a ideia e eu achei o jeito de executa-la, mas... acho que está faltando o principal... o dinheiro. Posicionou o Luís.
--- É... mas eu estive pensando quem sabe a gente dá uma parada nesses goles, por uns tempos... afinal, nós temos o dever de pelo menos ajudar... falou o Jaci.
--- É... mas, “esses uns tempos” aí, é que eu não estou gostando nada. Acho que é muito tempo... talvez o Warte meu genro, quem sabe... ele gosta muito de puxar o meu saco... ás vezes ele me empresta, e depois a gente paga  em “suaves prestações”, quê que você acha?... ele não vai nem perguntar o que vou fazer com o dinheiro... deixa comigo.
E falando assim o Luís foi para dentro de sua casa afim de falar com “o seu caixa forte”. Jaci ficou ali no jardim da casa a espera do amigo. Bastou o Luís entrar e Da. Mariinha, esposa do Luís, apareceu.
--- Olá “seu” Jaci..., cumprimentou ela assim que chegou.
--- Bom dia Da. Mariinha...como vai a senhora?
--- Bem... graças a Deus... foi bom o senhor aparecer, eu estava querendo fazer umas perguntinhas pro senhor. Disse ela, com um ar de desconfiada.
--- Ah é?..., mais sem jeito ficou o Jaci, e pensou “lá vem chumbo grosso”.
--- Sabe “seu” Jaci... o quê que está acontecendo com o Luís Paulo?... ele tem chegado em casa todo “estrupiado”, quase toda noite?
--- Não sei, não... eu não tenho visto nada, não... Disse ele, tentando se esquivar do fogo direto dela, por que desconhecia o teor das desculpas que o Luís tinha dado. E continuou. ... ele tem um probleminha com o joelho, não será isso não?...
--- Bom isso lá é verdade, disse ela, e continuou. ...mas e a noite que ele chegou todo molhado, falando que caiu numa fossa no caminho da fábrica? Não existe fossa no caminho da fábrica? Perguntou ela.
--- há há, essa não... essa não... Jaci começou a rir, enquanto pensava em alguma coisa. ... essa não... há há há....aquele dia... há há há. Sabe Da. Mariinha, aquele dia  ele estava passando mal do intestino, e achou que era gases... há há há.... ele deve ter dado esta desculpa por vergonha da família.... aliás eu até peço para a senhora não falar com ele, nada do que eu estou falando... ele pode  ficar com raiva de mim. disse o Jaci, doido para o Luís aparecer logo.
E mal acabou ele de falar, o Luís apareceu e foi logo chamando o amigo para sair.
--- Pronto companheiro, vamos se não fica tarde para encontrar o Lira na praça.
E com a chegada dele, o assunto entre Da. Mariinha e o Jaci, se interrompe de vez, e o Jaci se despedindo rapidamente dela, saiu com o Luís.
Enquanto caminhavam pela rua Oito, Jaci ia contando para o Luís, o “sufoco” que tinha passado com a esposa dele. E ao mesmo tempo,  afirmava também sua decisão de não ir mais à sua casa, porque a continuar assim, ainda ia se dar mal com as perguntas dela. Luís muito calmo, concordava com ele, e tranquilizava-o, dizendo que estava tudo bem e que mulher é assim mesmo, gosta de saber de tudo, mas esquece também com muita facilidade.
 E conversando, chegaram então na esquina da rua Major Novaes. Luís então, aproveitando a proteção do muro, chegou na esquina para ver se o nosso amigo ainda se encontrava na praça. E permanecendo  nesta posição,  somente virou o rosto para trás e confirmou para o  Jaci que o amigo ainda se encontrava sentado no banco de sempre. Aí então, começaram a formular o plano. Disse então o Luís.
--- Numa reta entre ele e nós, existem três bancos de cimento, se formos agachados a partir daqui,  dá para chegarmos mais perto, sem que ele nos note. E assim então fizeram,  agacharam e andando agachados, atravessaram a rua major Novaes, e se esconderam atrás do primeiro banco. Esperaram um pouco para descansar, porque andar agachado não é tarefa para qualquer um não, e eles já não estavam mais com idade para isso. Enquanto descansavam,  o Jaci então falou:
--- Olha Luís, o plano é o seguinte: nós vamos para aquele segundo banco ali, aquele que tem dois sacos de lixo encostado nele. Como você tem problema com este seu joelho, você fica me esperando ali. Eu vou passar direto para colocar o dinheiro na frente dele, e volto em seguida para ficar junto com você, neste segundo banco. Ok?
--- Certo. Disse o Luís.
E assim fizeram, os dois saíram em marcha de ganso, o Luís parou no segundo banco e se escondeu. E o Jaci foi até próximo ao Lira, aproveitando a proteção do jornal que o amigo estava lendo, e depositou o dinheiro no chão, retornando em seguida conforme combinado. Quando o Jaci chegou no banco que já se encontrava o Luís, chegou junto com ele um convidado inesperado, um cachorro que logo começou a cheirar o Lixo. Luís quis enxota-lo, com medo dele atrair a atenção do Lira e estragar tudo. Porem o Jaci não concordou, porque o Lira já estava começando a fechar o jornal e qualquer deslize agora, podia colocar em xeque, todo o plano. Luís então se conteve e começou a prestar atenção nos movimentos do amigo sortudo.

Lira por sua vez, fechou o jornal e ficou pensando naquela entrevista que ouvira no rádio, quando chegara na praça.
--- Coitado do rapaz.... deve ser muito penoso ser um cego... Olha só o sol.... que maravilha poder  vê-lo...  o verde do gramado...veja...  que maravilha...
E com estes pensamentos, levantou-se e começou a caminhar em direção ao dinheiro, atrás dele vinha também um engraxate, com sua caixa no ombro.
Os dois amigos que estavam ali atrás do segundo banco, começaram a ficar inquietos, diante da possibilidade do garoto, passar à frente do Lira, e pegar o dinheiro. E começaram a se interrogarem, se deveria ou não interromper a operação, mesmo porque eles já estavam preocupados com o barulho que o cachorro estava fazendo, com os sacos de lixo.
--- Não é possível que aquele “babaca”, vai deixar o moleque passar à sua frente.. não é possível. Disse o Jaci, já vermelho de raiva , porque o Lira já estava perto e não via o dinheiro no chão.

O Lira coitado, andando esbarra o pé no maço de dinheiro, como se o chutasse, e passa por ele. Jaci então leva as mãos na cabeça e o Luís esbraveja.
--- Filho... ele passou... o menino vai pegar o dinheiro... e falando isso ele se agita, e esbarra o pé no cachorro, que tinha acabado de achar um osso saboroso no lixo. Este, rosna feio e parte para cima dos dois, que se embolam numa acirrada luta. E enquanto isso o garoto pega o dinheiro, e com medo do dono aparecer, “cai no mundo com ele”. E o pobre do lira continua sua caminhada em direção a rua Sete. Os dois gladiadores finalmente conseguem se livrar da fera. E o saldo não é nada animador. Luís tinha sido mordido no joelho, e justo no joelho encrencado. E com suas roupas rasgadas, ajudava o gordinho, que tinha além de marcas de dentes na testa, tinha também fortes arranhões nos braços.
--- Vamos Luís... vamos ver se pegamos aquele rapazinho... disse o Jaci.
--- Bem que eu queria pega-lo, mas pra onde ele foi... o pior é que estamos machucados, com as roupas rasgadas e sem o dinheiro... e onde está aquele desgraçado do Lira...
--- Já vai ali na frente... respondeu o Jaci.
--- Ô Lira!.... ô Lira!... gritou o Luís, e fazendo gestos com a mão para que ele parasse. E ele parou na esquina da praça e ficou aguardando os dois inesperados amigos. Mas quando ele viu o estado que eles estavam, foi logo achando graça. E falou:
--- Ainda bem que “nesta” eu não estava... há, há, há.
O Luís, que já estava “por aqui”, com ele, foi logo retalhando.
--- Ah!... mas eu juro que você vai entrar “nesta”, se não me der uma boa resposta...
--- É Lira... o que você fez para vir daquele banco até aqui, e não pegar aquele dinheiro que estava no chão, bem na sua frente?. Disse o Jaci.
--- Hein!... dinheiro na minha frente... eu não vi nenhum dinheiro, não... Respondeu o Lira.
--- É... bem na sua frente?, disse o Luís, querendo esganar o Lira.
--- Olha eu juro que não vi nada... é que quando eu saí daquele banco, eu andei um bom pedaço, com os olhos fechados para sentir como é difícil ser um cego... deve ser por isso que eu não vi o dinheiro que vocês estão falando... E voltando para os dois, perguntou. E vocês?... porque não pegaram?...
Jaci então olhou para o Luís, e falou:
--- Vamos embora Luís... se não eu vou querer saber também, como uma pessoa pode ficar cega  por uma semana inteira.





terça-feira, 13 de setembro de 2016

Lira, e suas proezas

Em Aventuras Pickwickianas...




Lira, e suas proezas


                            O mês de setembro é visto com muito carinho pela população de Cruzeiro, pois é neste mês que acontece as grandes festas da cidade. E como não poderia deixar de ser, é nesta época que a cidade faz a sua Grande Exposição Agropecuária. E é para lá que  os nossos heróis se dirigem, nesta noite do dia sete setembro, afim de esquecer de vez, os malogrados momentos vividos no desfile da manhã.

 O relógio não marcava mais de oito horas, quando os três ali chegaram. O Luís sentia a garganta seca e estava doido para tomar uma dose daquela famosa  “branquinha”,  que tanto gosta. Ainda mais hoje que motivos para isso não lhe faltava. O mesmo acontecia com o Jaci, que já pensava nos até nos tira-gostos deliciosos, da Barraca do Peixe. Lira os acompanhava e durante todo tempo reclamava a perda do vidro traseiro do seu carro, que tinha se quebrado hoje, na hora da fuga.
--- ... agora, o pagamento ainda está longe e eu não tenho dinheiro para mandar substituí-lo...

                                            No palco central, estavam se apresentando a grande dupla sertaneja, Sabiá e Cabecinha de Fogo, dona de um grande sucesso no nosso meio artístico. 
                               
                                  E os três então chegaram na famosa Barraca do Peixe, e de pronto começaram a noitada. Jaci e Luís, se divertiam bastante cantando baixinho, junto com a dupla de cantores da capital. Mas todo este entusiasmo dos dois, não conseguia contagiar nosso amigo Lira, este estava visivelmente  chateado com o problema do carro, e a  impossibilidade de troca-lo já. O tempo passa e o agradável show termina, “os passarinhos” se despedem e o público aplaude entusiasticamente, enquanto eles descem do palco e se retiram para seus camarins.
                                     O alto-falante central anuncia agora que o rodeio está prestes a começar. Este anuncio então cai como uma bomba no meio deles, a ponto de despertar o saudosismo do Lira. E ele então começa a relembrar o tempo em que seu avô tinha uma fazenda, e por lá ele aparecia por ocasião das férias escolares. Até que ele começou bem este assunto, mas depois que seus amigos começaram a se interessar pela sua história,  então começou também a exagerar um pouco e dando asas à sua imaginação, fantasiava.
--- ... é, era um burro chucro... e eu era o único que conseguia montá-lo.
--- Mas, seu avô era muito sem juízo. Disse o Jaci, tentando rebater a fanfarronada do amigo. E continuou:
 ... deixar um garoto de dez anos montar um burro chucro, esta é de espantar...

--- Que nada, ele tinha era o maior prazer de me ver montar... e quando eu chegava ele até dizia “agora chegou quem vai acabar com a boa vida daquele chucro”... mas era um tempo bom... tenho muitas saudades.
                        Mas tanto o Jaci quanto o Luís, “conheciam muito bem seu eleitorado”, e quando o Lira começou com seus costumeiros exageros, eles também começaram a não ligar para o que ele estava falando. O rodeio  continua na arena, mas os três continuam na Barraca, deixando se “picar pela cobra de vidro”. Subitamente a musica para, faz-se um breve silêncio e o locutor anuncia:


“... Atenção senhoras e senhores: numa cortesia da Funerária Vai Com Deus, será dado ao pião principiante, de qualquer  idade, que conseguir permanecer mais tempo em cima do burro, a quantia de trezentos reais. Quem quiser concorrer, é só se apresentar aqui em nossa arena...” 



                             O Jaci nesta hora engasgou com a cachaça que estava tomando e num misto de querer falar, engolir e tossir, fica agitado batendo sem parar no ombro do Lira. O Luís vendo a aflição do amigo, da  um tapa nas suas costas, aí então  o Jaci pigarreou, limpou a garganta  e começou a falar.
--- Aí Lira, a oportunidade que você queria para resolver o problema do carro... e mais, dá até para você reformar o carro todo...

                                 Enrubescido e pego no contra-pé, o Lira se estremece todo e tenta sair pela tangente.
--- Não... eu montei mesmo mas faz muito tempo... estou sem prática...
--- merda..., interviu o Luís, quem foi rei sempre será majestade...
--- Isso mesmo, Lira. Completou Jaci, e continuou a jogar “confete” no amigo. Só se aquilo que você falou da fazenda do seu avô, não for verdade...
                          Essa conversa estava deixando o Lira muito nervoso, aliás todo mentiroso fica mesmo muito bravo, quando percebe que alguém está tentando desmascara-lo. Mas enquanto os dois amigos tentam convence-lo a entrar no rodeio, o Lira deu uma olhada por cima daquele povo que estava aglutinado em volta da arena, como se estivesse tentando medir o tamanho de sua vergonha, se tentasse montar o tal cavalo. Mas para o azar dele, nesta sua olhada, viu a figura expressiva e marcante do seu chefe e sua digníssima esposa, assistindo o rodeio.
                          
                            Numa fração de segundo ele “viajou” e nesta viajem pensou na admiração que  o seu chefe teria por ele, se o visse montar e ganhar aquele prêmio.
                                 
                                  E pensando assim, se levantou e começou a caminhar para o local do concurso. Jaci ia do seu lado, dando-lhe as últimas instruções:
--- ... segura no arreio, comprime as pernas na barriga do animal, e tudo vai terminar numa boa...
                              O Luís , embora cambaleante por causa da bebida, ia também ao seu lado dando a maior força para o nosso peão.
--- Vamos Lira... esse cavalinho, não é nem a sombra daquele burro chucro do seu avô...

                                  Ao chegar perto do curral, Lira teve vontade de voltar atrás e falar que aquilo tudo era mentira, e que ele nunca tinha montado realmente. Mas, infelizmente agora já era muito tarde para retornar, “seu barco já tinha desgarrado e já estava em alto mar”.
                                  O controlador dos peões, enfiou-lhe  na cabeça um chapéu de palha, todo sujo e molhado de suor, e batendo-lhe no ombro disse.
--- Sua vez... vamos..., e jogando-o contra a parede do box de tábua, continuou falando. ... suba... vamos.
                                    O Jaci mais que depressa ajudou-o na tarefa de subir na cerca. O Luís, este não, já tinha conseguido um lugar estratégico, estava sentado na ultima tábua do cercado, aguardando o espetáculo começar. Lugar este que ele só conseguiu porque estava bêbado, e sendo assim bêbado sempre tem "preferencia".
                                  O Lira então começou a subir, e as suas pernas tremiam tanto que era preciso que o Jaci as guiasse com as mãos, por entre as tábuas. Seus olhos  não vê outra coisa senão aquele monstro que estava dentro do box aguardando-o.
                                Já em cima, com as pernas abertas e colocadas nas duas cercas que delimita  a gaiola, tremendo como uma vara verde, aguarda o sinal de partida.
                               
                                 Seu olhar agora cruza com o olhar do burro que virou para trás. Mais tarde o Jaci, que acompanhou esta cena de perto, segredou ao Luís.
                           --- ... me pareceu que o burro olhou para traz e disse: “coitado”.
                                A expectativa então se quebra, o sinal é dado e o Lira se solta de sua ancoragem, senta no lombo do animal e imediatamente o portão se abre.
                               
                                 A besta parte em disparada e vai em direção ao local onde está o grande ídolo do Lira: o seu chefe. Parecia até que o Lira tinha o domínio total da situação. 




                              Mas infelizmente, só parecia. Nos três segundos que durou esta corrida, Lira que tinha se sentado no centro do lombo do animal, tinha se escorregado e agora  estava em cima da anca do “indomável”. Foi aí que o cavalo estacou e empinou as patas traseiras, na tentativa de dar um coice duplo.  Um grito então se ouviu--- socorro... 


                                   E o  corpo do nosso amigo então cortou o ar num acrobático salto mortal. Dando duas magistrais piruetas, passou por cima da platéia que estava em pé na cerca, e nesta platéia estava incluído o grande “chefe e sua esposa”, e vai direto para dentro da Barraca “ Almoço Rápido”. Logo que ele entrou, saiu um boa quantidade de maionese fresquinha, que desafortunadamente estava em sua  rota de colisão.
                                      Um grande barulho se ouviu de dentro da cantina, a mesa que o recebera, graças a Deus, se partiu ao meio e com isso amorteceu sua queda. Mas a maionese que saiu, fez um estrago bem maior para ele, pois emplastou o cabelo da esposa do seu grande ídolo, e de quem mais, estava nas proximidades dela. Em sua raiva o “chefe” simplesmente disse: “que decepção...”, enquanto limpava o cabelo dela com as mãos.
                                    O Luís, na confusão que o Lira arrumou, disparou a rir e com isso perdeu o equilíbrio  caindo da cerca, e agora estava sentado no mesmo lugar, com a calça toda “molhada”(mijou-se de tanto rir), e um riso descontrolado. Jaci coitado, teve que correr em socorro do amigo, porque o japonês, dono da barraca desmanchada, tentava entre lamentos e choro, pegar o Lira com uma colher de pau na mão. 

                                   Mas felizmente junto com o Jaci chega também a polícia e seguram o proprietário furioso, protegendo assim nosso amigo peão, que de peão mesmo não tinha era nada.
                                                                                        E agora sem ambiente na festa, os três resolveram ir para casa.
                                              No caminho, o Lira se conjeturava no seu intimo.

--- E o chefe?... como vou encara-lo depois dessa...




sábado, 3 de setembro de 2016

O Sonho do Luis Paulo

Em Aventuras Pckwickianas... Os Tres Inocentes




O Sonho do Luis Paulo



                               Uma frase bem definida ficou na cabeça do Luís, no dia da Procissão da Virgem Maria, que acabou tendo aquele desfecho horrível: “Ainda hei de tocar naquela Banda.”. E como de fato, por esta ocasião, era muito comum encontrar o Luís andando na rua, assobiando um “dobrado” ou  fazendo sons com a boca, imitando um instrumento metálico. E quando percebia que ninguém estava olhando, aí ele até exagerava um pouquinho, e marchava também imaginando estar dentro da formação da nossa querida Banda de Musica.
                              E tanto fez disso uma ideia fixa, que o Jaci se condoeu e tentava de todo jeito, ajudá-lo a realizar seu sonho. E um dia, aproveitando a hora do almoço, o Jaci  veio com Lira à cidade  para abastecer o carro. Ao voltar  para a fábrica, passando pela rua Cinco, viram o chefe do Lira conversando com o maestro da Banda, na calçada junto à sede da “furiosa”. Aí então, começou a tomar forma o sonho do Luís. Disse o Jaci.

--- Você viu quem eu acabo de ver, naquela rua?

--- Você não está vendo que eu estou na direção?, como eu vou prestar atenção numa coisa que está em outra rua?. Respondeu o Lira visivelmente de mau humor. 

                          Todavia o pacato Jaci, que sempre foi o pai da paciência e também bastante  acostumado com o temperamento do colega,  não importou com o tom da  resposta, e continuou falando.

--- Pois eu acabo de ver o seu chefe conversando com o maestro da Banda. E como eu sei que você é muito “chegado” ao homem, pode ser que você consiga colocar o Luís naquela Banda, pois um pedido do “homão”, tenho certeza que o maestro não vai negar.

--- É... mas não é tão fácil assim, não...

--- Como não é Lira? retrucou o Jaci. E continuou num tom mais ríspido. Você acha que nós não sabemos que toda segunda feira, você compra aqui no mercado um queijo para dar de presente a ele, e fala que trouxe de Sorocaba?

                            Meio sem jeito e bastante sem graça, Lira respondeu.

--- Tá... tá... não precisa ficar me agredindo não. Vou ver o que posso fazer.

                           E a sorte do Luís estava mesmo sendo lançada. Porque naquele momento, ali defronte da sede da Banda, o chefe do Lira estava comunicando ao maestro, que o pedido dele com relação à doação, por parte da Iochpe Maxion, de tambores vazios, tinha sido atendido. E que ele podia desde já promover a venda dos referidos tambores, como forma de arrecadar fundos para a corporação. Como se pode ver, justamente por causa desta conversa, bastava simplesmente aguardar até a próxima segunda feira, dia do queijo do chefe, para que o plano então funcionasse.

                           E assim aconteceu, após o almoço, como de costume o Lira foi até a sala do engenheiro,  entregou o presente rotineiro e fez o pedido. O “grande chefe”, para mostrar sua satisfação com o presente recebido, pegou o telefone e conversou com o maestro imediatamente. E a tão sonhada vaga na Banda,  foi arranjada.

                           Naquela mesma segunda feira o Luís se apresentou na sede. Os dois amigos acharam por bem não comparecer ao ensaio da Banda, porque tiveram receio de que a presença dos três, pudesse suscitar “lembranças desagradáveis” nos componentes da sinfônica. E por outro lado, o maestro achou que agradando ao Luís, ele estaria automaticamente agradando o engenheiro da Fábrica. E com isso certamente, poderia estar representando mais tambores para a campanha de capitação de fundos para a Banda.  Com esse pensamento então, recebeu muito bem o Luís e com um largo sorriso, perguntou a ele qual o instrumento que ele gostaria de tocar.

--- Eu?!... eu... só sei tocar baixo tuba. Respondeu o Luís, arriscando este instrumento, porque pensava ser este, entre todos os instrumentos da corporação, o mais fácil para ele aprender.

--- Pois não disse o maestro. E gritando para o musico lá de trás. Juvenal!... ô Juvenal !... passa a tuba para o Luís e vem cá para o bumbo, que o ensaio já vai começar.

                       Posições tomadas, o bumbo soou surdo: Bum!, logo em seguida a caixa de guerra fez: pá... rá... te... Bum!, tornou o bumbo, e logo os demais instrumentos entraram, começando a execução do Hino Nacional Brasileiro. Mas o regente, que tinha os ouvidos bem aguçados,  logo percebeu que um dois baixos, estava marcando errado. E como bom observador, bastou olhar pro Luís que com aquele instrumento enfiado no pescoço, tinha as maçãs do rosto se enchendo de ar justamente na hora errada. Ali então estava o erro identificado.

                        Durante a semana toda o maestro tentou ensinar o Luís, mas ele não conseguia aprender. E o maestro só continuava insistindo   porque não queria perder os possíveis tambores a mais, que a sua presença podia proporcionar. E mesmo a contra gosto, o manteve no grupo.

                        Chegou então o domingo tão esperado, sete de setembro. Dia da Pátria. Dia de desfile. Dia do Luís. Dia do sonho do Luís. Já na véspera, ele não conseguia esconder  o seu tamanho entusiasmo. Havia levado seu instrumento para casa ,afim de limpá-lo e poli-lo. Fez  sua esposa Da. Mariinha lavar,  passar e engomar seu uniforme, que ele chamava carinhosamente de farda. Entretanto, este entusiasmo excessivo não foi benéfico para ele, seu intestino bambeou de uma jeito, que fez com que ele passasse toda a noite entrando e saindo do banheiro. Só melhorou com a ajuda de chás e comprimidos, ministrados pela sua paciente esposa.

                         Raiou então o dia. E lá vem nosso herói pela rua Quatro todo engalanado. Sapato preto que era um brilho só, calça azul e jaqueta da mesma cor, mas com meia dúzia de botões dourados, verticalmente colocados no peito. Nos ombros dois laços, que mais parecia duas condecorações militares. Tinha seu instrumento enfiado no pescoço, e andava galhardamente, fazendo  se notar por todos que encontrava na rua. Vinha para o tão esperado desfile. Vinha todo feliz da vida.

                        O ponto de encontro combinado foi  em frente ao antigo Cine Palácio. O Luís foi o primeiro a chegar, somente uma hora depois, é que começaram a chegar os outros músicos. E às dez horas, o maestro reuniu os músicos para a formação, nesta hora então segredou baixinho no ouvido do Luís:

--- Luís, tira o bico do instrumento e põe no bolso.

--- Mas... como é que eu vou tocar?, perguntou ele.

--- Veja bem Luís... você ainda não sabe tocar direito. E eu não posso correr o risco, de que você toque errado. Alem do mais, ninguém vai ficar sabendo deste nosso acordo, pois isso ficará só entre nós dois. Entendeu?

--- Mas...

--- Não Luís, definitivamente, não. E depois... veja bem, você vai fazer tudo como se fosse realmente um músico... e ninguém vai desconfiar de nada. Ok?

--- Tá né... o senhor quer assim... e o nosso herói não teve como discordar...

O Luis Paulo é o musico que se vê somente o seu instrumento, nnesta foto. É o Baixo Tuba que se vê ao fundo


                         Desta forma  então, começa o desfile. A praça estava repleta de gente. Todo mundo esbarrando em todo mundo. O cordão de isolamento que a prefeitura tinha colocado, era empurrado para afrente, e estreitava até mesmo a pista por onde ia passar as agremiações escolares, a Banda e o Tiro de Guerra. E depois de um certo tempo, chega então a hora da banda desfilar. Como havia somente duas tubas, porque a terceira tinha se danificado com a bombinha “cabeça de negro” no dia da procissão, o Luís foi colocado no final da formação, na ala esquerda, e a outra, na mesma posição porem na ala direita. E a marcha vai acontecendo, com a Banda descendo a rua Capitão Neco.

                         Numa visão geral, até que estava bonito o desfile, só não se podia reparar no Luís, porque por causa do joelho encrencado, era o único que ia com o passo errado. E tocando o Hino Nacional, logo eles penetraram na região da praça,  para o Luís era o êxtase total. Seus olhos nem olhava para a partitura, porque alem de estar só fazendo mímica com o instrumento, ele procurava pela Da. Mariinha que estava ali em algum lugar junto com suas filhas, somente para vê-lo desfilar. 
                       A corporação agora passa debaixo do palanque das autoridades e segue. Quando chega na esquina da prefeitura, a ala direita faz o pião e a formação muda de rua, indo agora  garbosamente na rua Três. Foi nesta  esquina que o Luís encontrou quem ele tanto procurava, sua família. De longe seus olhos brilharam, um semblante alegre se estampou em seu rosto, seu olhar então se fixou em sua prole, e não mais saiu. Era o clímax total, sua família, ele com aquela tão sonhada “farda” e seu bonito instrumento. A esta altura, ele passou a soprar com mais força ainda  para que ninguém percebesse que não estava tocando. 
                          Neste momento, o companheiro da frente, obedecendo a marcação do pião direito, começa  mudar a direção, mas o Luís coitado, não percebe o que está acontecendo e segue reto. O povo que estava no meio da rua, embora compactado, faz a abertura e o Luís que não tirava os olhos da sua família, desgarra-se do resto da corporação. Com a passagem dele, a abertura  se fecha.  Só então aí, que o Luís se deu conta de que estava totalmente fora do desfile. 
                         Voltou depressa pedindo licença, e empurrando todo mundo. Quem via de longe a cena, só via aquela bacia prateada por cima das cabeças do povo, balançando de um lado para o outro. Com muito custo chegou novamente na passarela, mas só que agora, quem  está desfilando é o Tiro de Guerra, e a banda já ia a uns cinqüenta metros à frente. Não tendo outra saída, o Luís entrou no meio do primeiro pelotão militar, com a meta de alcançar a Banda. 
                           Nunca se viu tanta gente nesta praça, como no dia de hoje para ver o desfile. As calçadas da ruas eram pequenas para conter tanta gente, de forma tal que o povo ia estreitando até a passarela do desfile. No pelotão militar, dava para se ver que um soldado marchando, quase esbarrava a mão no corpo do companheiro do lado. E infelizmente, este era o caminho que o Luís tinha que passar, para se juntar novamente à sua turma. 
                            E começou a correr, só que nesta corrida, sua tuba balançava muito e em seu movimento de vai e vem, começou a bater na cabeça dos soldados, e derruba o gorro de um deles. Este infeliz,  abaixou então rapidamente para apanha-lo. O colega de trás, não viu que ele tinha se abaixado, e em conseqüência tropeçou e caiu por cima, e aí outro, depois outro e começaram a se amontoar. A multidão, que adora ver o mal feito, começou a rir com a situação cômica que o nosso “musico” havia provocado. 
                          Nesta hora o maestro ouvindo a balbúrdia, olhou para trás e viu o Luís no meio do destacamento com a sua tuba, e os reservistas embolados no chão. Sua raiva foi tanta que seus olhos ameaçaram  sair das  órbitas, seus cabelos ficaram em pé e ele promete a si mesmo que o Luís não ficaria na Banda nem mais um minuto após o desfile terminar, mesmo que ele viesse a perder mil tambores vazios. 
                          Neste momento as autoridades que estavam no palanque, vendo o que acontecia, viram de costas para poder rir, e coincide exatamente com a passagem por eles do Pavilhão Nacional. Ninguém conseguia ficar sério  diante daquelas cenas. E o Luís continuava “arrasando” o desfile. 
                          Esta bagunça, acontecia ali em frente a loja Irmãos Pinto, e ali na calçada trepado em um caixote de lixo, estava o Jaci tendo a seu lado o Lira, e eram os únicos a não acharem graça da situação. Pois ali estavam para ver seu amigo desfilar e não se conformavam com os acontecimentos delineados. 
                           E como ato final, em sua pressa para alcançar a sua agremiação, Luís tropeça num fuzil caído e tomba para frente, se estatelando no chão. Aí então foi demais para os dois amigos que estavam ali ao lado, Lira e Jaci correm e levantam o amigo Luís, que está agora com os ombros machucados pelo pesado instrumento. Mas sua reclamação é outra:

--- O meu joelho... ele é que foi o culpado...

                           A Banda tinha parado, aliás o desfile todo tinha parado, quando se ouviu o barulho estridente da tuba no chão. E os músicos viraram para trás, e eles, inclusive o maestro, reconhecem os três personagens do dia da procissão.

--- São eles... aqueles três... vamos pega-los...

--- Por aqui, disse o Lira, puxando os dois e se infiltrando no meio da multidão, depois correndo para pegar o caravam que estava estacionado em frente ao Banco do Brasil. Com muito custo entraram no carro e quando este consegue sair, já estava começando a ser esmurrado pelos primeiros soldados, músicos e inclusive o maestro, que adoraria pegar os três e principalmente o desastrado Luís Paulo.


sábado, 27 de agosto de 2016

As Bombinhas do Jaci

Em Aventuras Pickwickianas, Os Tres Inocentes


 

Jaci e suas bombinhas





Era o dia trinta e um de maio, e o relógio marcava dezenove horas em ponto. Os três grandes e inseparáveis amigos se encontram na praça da Matriz de Nossa Senhora da Conceição. O dia era muito especial para eles, era dia de procissão.
O Luís, mesmo manquitolando por causa do joelho e machucado no “trem de aterrissagem”, não podia faltar, pois era apaixonado por banda de musica. Jaci, mesmo com o maxilar inferior bastante dolorido, não arredava o pé da pracinha, esperando ansiosamente a hora de soltar suas bombinhas do tipo “cabeça de negro”, que trazia no bolso da calça. Este era fanático por fogos de artificio, e vibrava com todos , busca pé, chuva de prata, rojões, etc.. E depois que o andor entrasse dentro da igreja, era então a hora tão esperada por ele,  hora de soltar os rojões. O Lira era dos três o mais equilibrado, muito religioso, não perdia uma procissão. Era realmente um verdadeiro exemplo de  pura religiosidade.
O cortejo ia chegando e já estava com o andor da Virgem Maria,  próximo da primeira árvore da praça, logo atrás vinha a gloriosa Banda Primeiro de Maio, tocando um dos “dobrados” que o Luís mais gostava. O Lira estava ajoelhado na grama, esperando o andor entrar na porta principal do Templo. Ao seu lado estava o Jaci já bastante excitado, aguardando o momento de soltar as bombinhas. Sua ansiedade era tamanha, que ele já estava com uma delas na mão, encostada na caixa de fósforo, pronto para atrita-la. No seu rosto, um sorriso eternecedor, parecia até uma criança. Do outro lado, estava o Luís com os olhos lacrimejantes de alegria e contentamento, em ver os valorosos músicos vestidos com aquela farda azul e aquele quepe do tipo militar na cabeça. E em seu íntimo dizia para si mesmo:
--- Um dia ainda realizarei meu sonho de tocar nesta Banda...
                   Foi neste exato momento que o passarinho que estava  dormindo no galho da árvore, e este  por sua vez estava por sobre os três, defecou. O estrume fresco, caiu exatamente na cabeça do Lira, que se assusta e tenta se levantar puxando o braço do Jaci, para que servisse de apoio. Ao ter seu braço puxado, a bombinha se atrita na caixa de fósforos e se incendeia. Jaci então se assusta com a bombinha fumegante na sua mão, e apavorado atira-a para cima. E não é que ela  vai então direto para dentro do Baixo Tuba, do musico que desfilava na fila do meio da corporação. Foi um estouro só. O coitado do musico sentiu que a sua prótese, forçou passagem pela sua garganta e cai desmaiado. O corpo do instrumento, sofreu primeiro um estufamento, que logo depois se rompeu, abrindo uma fenda enorme. A musica instantaneamente pára. Todo mundo olha para os três. Luís então sussurra baixinho no ouvido do Jaci.
--- Disfarça... disfarça.... abaixa esta mão Jaci, que está todo mundo olhando para nós...
                Este incidente, provocou uma reação em cadeia, todos os músicos partiram ao mesmo tempo pra cima deles. E eles não tiveram outra alternativa, senão partir em disparada na direção da Padaria Pão Quente. E vocês já viram músicos correrem com seus instrumentos na mão? Pois é,  é muito engraçado. Principalmente a flauta, ela faz  um som assim fiiiiooouuuuiiii.
           Luís corria à frente, e podia até ser considerado um herói, porque com a bunda ralada e o joelho encroado, fazia milagre em manter-se à frente do grupo. Em segundo vinha o Jaci, o roliço suava horrores para carregar aquela sua dilatada barriga, que o impedia de ver onde colocava os pés. E em terceiro o Lira, com suas pernas compridas ao  dobra-las para frente do peito, quase esbarrava em seu próprio queixo, e parecia mais um soldado inglês, em marcha acelerada. E por último dez, quinze ou vinte músicos, em todos duas coisas em comum, a raiva e a vontade de virar os três pelos avessos.
                   Mas a Providencia Divina sempre os ajuda. Quando chegaram na esquina da rua Seis, um caminhão passou em disparada indo no sentido da rodoviária. E os três como se tivesse ensaiado, penduram-se na traseira dele e escaparam assim da fúria da “furiosa”. 



 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Festa Rotunda

Em Aventuras Pickwickianas... Os Três Inocentes.



                                            


                                         Festa na Rotunda







  Forte era o vínculo de amizade entre os três, de maneira  que onde ia um, os outros dois  acompanhava sem contestar.

 E então, depois daquela mal fadada tarde, que se projetava ser tão tranqüila, e que no entanto acabou no que acabou, eles bem que ficaram  sem se ver por  uns três dias.  A vergonha foi tanta que nem na fábrica apareceram para trabalhar, com medo dos comentários maldosos dos colegas. E dos três,  o Lira era o que mais temia esta situação, por que em vista da verdadeira adoração que nutria pelo seu chefe,  não admitia de forma alguma, que ele viesse a  saber do ocorrido.

Mas a vida  continua, e então passados estes dias de isolamento,  a “poeira baixou” e eles então se procuraram, e se encontraram no apartamento do Jaci, que fica situado ali na rua Sete.

Lira chegou primeiro e enquanto conversava com o Jaci e  se preparava para se sentar no sofá, ouviu fortes batidas à porta. Era o Luís que também chegava.

--- Onde é que nós vamos hoje? Foi logo perguntando ao entrar.

--- Depende  de vocês. Respondeu o Lira, e completou. ... vocês sabem que eu topo tudo, menos beber...

--- Olha, aconselhou o Jaci, como o Luís está com este joelho  avariado, e eu continuo com as  pernas duras por causa daquela correria, parece até que  engoli uma alavanca, acho que devemos ir aqui perto mesmo, na Rotunda.

--- Porque?... o que  é que tem lá pra gente ver? Perguntou o Lira.

--- Ah!... é a festa de Santa Cruz, todo ano ela acontece ali... e é muito boa. Disse o Luís esfregando as mãos, num gesto característico de quem gostou da idéia.

Como não houve objeção, de pronto saíram.
                     Durante a caminhada o assunto reinante entre os três, não podia ser outro senão,  a epopeia vivida por eles, três dias atrás. E dizia então o Lira, fazendo alusão ao seu carro.

--- Tive que trocar o pano do banco traseiro, e boa parte da espuma do banco... e o que é pior, ainda tive que pagar o dobro do que normalmente é cobrado para fazer o trabalho, porque ninguém queria botar a mão no meu carro... também com aquele cheiro...

--- Ah!, isso não foi nada, replicou o Luís, ... pior foi convencer a minha mulher que eu tinha caído numa fossa, quando voltava para casa, depois do trabalho.

--- Chato né... interpelou o Jaci,. ... e por acaso algum de vocês viu o tele-jornal?... e... e  viram se saiu alguma coisa envolvendo o nosso nome?

--- Quanto a isso, pode ficar tranqüilo, eu assisti todos os três dias e não saiu nada... mas afinal eles também não conseguiram fazer a filmagem... iam mostrar o quê?

E nesse choro de “Madalenas arrependidas”, chegaram na festa. Havia muita gente, muita iluminação, barracas de pipoca, de bingo, de peixinhos, de argolas, de cervejas...epa! lá estavam eles prontos para “tomarem todas”, já o Lira não, este se divertia apenas comendo salgadinhos, agora mesmo estava com um bom pedaço de linguiça na mão.

Ali naquela barraca ficaram por mais de uma hora, tempo mais que suficiente para que os dois, Jaci e Luís, tomassem umas sete ou oito pingas cada um, enquanto se deliciavam com as musicas que jorravam, de dentro daquela enorme caixa acústica, plantada no meio da praça.

Cansado de ali ficar e inconformado com o excesso de bebida ingeridas pelos dois amigos, Lira então os chamou para dar uma volta pela área da festa. Sua intenção era das melhores, mas infelizmente, foi aí neste ponto, “que a vaca foi pro brejo”. Já manquitolando por causa do joelho e empurrado pelas excessivas doses de cachaça, Luís andava como se estivesse “cercando porco”. Jaci, por sua vez suava na testa como se estivesse praticando um esporte, sem falar na cor avermelhada de sua pele, que mostrava muito bem o alto grau etílico em que se encontrava. Detiveram-se do lado da roda gigante do Parque de diversões, que abrilhantava também a festa.

E conversa vai conversa vem. Dois moleques brincando de pega-pega, passa correndo entre os três amigos que estavam ali conversando. Só que ao passar no meio deles,  sem querer esbarram no Luís que a esta altura, já não era mais dono de seu equilíbrio, fazendo-o girar nos calcanhares, ao mesmo tempo que pende seu corpo para dentro do cercado que isola o aparelho. Para não cair feio, o Luís por ser muito alto, passou a perna por cima do cercado e sai  correndo com o corpo curvado, paralelamente à grande roda. Em determinado ponto da sua trajetória, consegue parar de correr. Ali então balança o corpo equilibrando-se novamente, e sorriu para os amigos mostrando que não estava tão bêbado assim. Entretanto, na posição que ele conseguiu parar, praticamente, não ficou folga nenhuma entre ele e a roda gigante. Tanto que o gancho que protege os dois passageiros, que estão sentados num dos vários bancos da roda, se prende na cinta da calça do Luís, e o carrega para cima.

Atônito com tudo isso, apesar de estar sóbrio, o Lira ficou completamente sem ação. Jaci então, mesmo bêbado, tenta partir para a cabina de controle do brinquedo, mas ao virar rapidamente nesta direção, esbarra violentamente na namorada de um cara que está  neste exato momento, passando por  detrás dele e cai. Na ânsia de evitar esta queda, procura alguma coisa que pudesse se segurar, e a única coisa que estava por perto, era a saia desta mulher, que ele ao segurar-se nela, desce também com ele. A mulher ao se ver só de calcinha, grita histericamente. E esta foi a última coisa que o Jaci viu, antes do punho fechado do forte namorado dela, se chocar com seu rosto vermelho.

E o pobre do Luís continua subindo e gritando
--- Socorro... me tirem daqui... socorro...

                             O Lira então, consegue se libertar do estado de choque em que estava, e corre em auxílio ao amigo que estava preso na roda. Chegando na cabina, completamente apavorado, não vê que pegou a alavanca errada, e ao acioná-la, fez o pobre do Luís dar mais uma volta completa em cinco segundos, passando sentado pela plataforma de embarque, e subindo outra vez, gritando sem parar.

 Finalmente o maquinista, que tinha ido ao banheiro, chega e afastando o Lira, controla o movimento da roda, que vai parando devagar na plataforma, e liberta o Luís.

Com o aparelho parado, Lira chegou até o Luís, que a esta altura já não tinha mais muita coisa de moreno não, estava era branco como uma cera. Levantou-o, e ele voltou a cair, pois suas pernas não conseguiam se firmar no chão. Com muito custo apoiando-se no ombro do amigo, Luís deixou o recinto da plataforma de embarque. Suas nádegas estavam raladas e sangrava um pouco. Apresentava também um  forte vergão na altura da barriga, feito pela cinta que o suportou no ar. E a custura da calça, chamada de cóz, penetrou-lhe por baixo e por pouco não o dividiu em dois.


Caminhado assim com  dificuldade, chegaram no Jaci. O gordinho estava dormindo que nem um anjinho, tinha até um leve sorriso lábios. Acordaram-no com leves tapinhas no rosto e algumas sacudidelas, e trataram de ir logo para casa.