 |
| Foto da planta da AmstedMaxion de Cruzeiro-sp |
Os Três Inocentes...
Nossos
personagens existem, porem seus nomes, bem como seus temperamentos, vícios e
defeitos, são produtos da mente de quem os criou. E posso garantir que não foi
Deus.
O
livro é autêntico, assim como seus personagens, e sua narrativa. Porém devo
confessar que no passado, alguém teve idéia semelhante, e compôs “ As Aventuras
do Sr. Pickwick”. Obra imortal, que me coloca na condição de “sentenciado”, se
por ventura eu tiver a ousadia de dizer que o plagiei.
Contudo,
se no passar das folhas, alguma coisa o atrair (no que duvido muito), toma-a, é
tua. E pode estar certo que te dou de todo coração. No entanto, aquilo que não
o interessar, deixe que flua por entre os dedos, e se perca na enxurrada de
coisas vãs, que a vida possui.
Agradeço
ao Pai Celeste, que teve a caridade de não impedir o término da obra, embora
talvez, ainda venha a se lamentar um dia, por isto.
Acho
que já falei demais e o fiz perder um bom tempo, mas era necessário desculpar-me com
antecedência, para não ficar com a minha integridade física eternamente
ameaçada.
João de Assis, o
autor.
12/05/1992
Jaci, o Dom Juan
Cai a tarde. A névoa cinzenta produzida pelas poucas fábricas existentes no Vale do Paraíba, abafa a cidade filtrando lânguidos raios de sol, que com sua magia, eterniza o que fora mais uma jornada de trabalho, na Iochpe Maxion de Cruzeiro.
Os operários
começam a sair. Um pouco aqui, um pouquinho lá, e todos vão caminhando a passos
largos na busca da condução que os
levará para casa.
Em meio a estes pequenos agrupamentos, dois
personagens se destacam. Um, de estatura
mediana, um pouco gordo, rosto avermelhado, parcos fios de cabelos loiros,
fazendo sobressair seus olhos azuis. Com a idade perto dos cinqüenta anos, chama-se Jaci. O outro, de nome Luiz Paulo, tendo também
mais ou menos a mesma idade, muito alto, magro de pele morena, cabelos crespos,
e nariz afilado. Conversavam, enquanto caminhavam lentamente, destoando assim
dos demais que saiam depressa.
--- ... pôxa...
--- Que foi Luiz?, perguntou
Jaci.
--- È que eu estava
querendo passar no “bambueiro um”, mas
acho que não vai dar...
A comunicação entre eles, muitas vezes, mais parecia um verdadeiro dialeto. O primeiro exemplo disso, já estava aí. Bambueiro, significa bar. O numeral adicionado, indica o estatus de preferencia, quanto menor, mais preferido.
--- E o quê está impedindo? Respondeu Jaci.
--- Ah!... é a Mariinha. Ela quer que eu a leve na casa
do meu genro agora à tarde, respondeu Luiz.
--- Se esse é o problema,
porque não a levamos primeiro onde
deseja, e enquanto ela fica cuidando do
netinho, damos uma chegada até o bar. Disse o sempre cordato Jaci.
--- É... é... até que não é
uma má ideia, não. Completou o simplório Luís.
E nesse andar calmo e tranqüilo, descendo a alameda que fica em frente ao escritório central, logo se viram numa comprida fila de funcionários, que se preparavam para passar pela inspeção da portaria. Se devagar estavam, mais devagar iam agora entre o vozerio dos participantes da fila, e o som estridente da campainha de inspeção.
Luiz passou primeiro e ficou aguardando seu companheiro que caiu na “malha fina”. O guarda no entanto, somente apalpou-lhe as pernas e dispensou-o. E os dois então saíram no portão.
Foi exatamente aí, que aquela calma aparente desapareceu por completo. Instantaneamente ouviu-se a voz grossa e rouca do repórter Gil Gomes, alardeando todo mundo e se dirigindo ao Jaci.
--- Aqui está... meus senhores... o homem da Jandira... o homem que arruinou o lar desta pobre mulher...
Ao ouvir isso, Jaci se assustou. Seus olhos azuis se arregalaram. Seu rosto que já era vermelho, agora se assemelha a um tomate maduro. E numa fração de segundos agachou-se atrás das pessoas que saiam à sua frente, numa visível tentativa de se esgueirar das lentes da câmara de televisão. E não menos tenso que o seu amigo, Luiz percebendo a situação, sacou da carteira de documentos que carregava debaixo do braço, e acerta a cabeça do repórter.
Jaci ao se agachar rapidamente derruba sem querer dois funcionários que vinham logo atrás de si, fazendo-os tropeçar em seu próprio corpo. Formou-se então um verdadeiro tumulto, naquele portão estreito.
Daí pra frente, o que se viu é até difícil de contar. No corre-corre que se formou, os dois se põem em desabalada carreira, só que na direção errada, foram justamente na direção ao rio. Como não podiam voltar, pularam dentro da água objetivando alcançar a outra margem. Só que nessa hora é que o pobre do Jaci se lembrou que não sabia nadar. E debatendo-se fortemente, chamou a atenção do Luiz que nadava suavemente na flor da água.
--- ih!?... e agora?... vamos me dê a mão... anda. Gritou o Luiz.
O Jaci coitado, não ouvia e muito menos via o seu amigo, que a esta hora já estava chegando perto dele, pois de olhos fechados tentava lutar contra a água que o sufocava. Luiz percebendo que não teria ajuda dele, passou o braço pelo seu pescoço como se tivesse aplicando-lhe uma “gravata”, e puxou-o até orla. Enquanto na margem oposta o tumulto continuava e sobressaia a voz do fatídico repórter.
---Aí está senhores... o sem vergonha... tentando fugir... do “Aqui... e Agora”.
Na pressa de se livrar daquela constrangedora situação, Luiz não viu que nadou em direção a uma rede de esgotos. E enquanto laçava com as mãos os ramos da margem para auxiliar seu amigo a subir, coincide com a chegada de novos entulhos humanos pela grossa manilha de cerâmica. E eles só tiveram tempo de proteger a boca, o resto.... “foi pro vinagre”. Mas, tempo era o que eles não podiam perder. Por isso, logo que se safaram do rio, pularam a primeira cerca de arame farpado que viram à sua frente. Jaci parecia que ia explodir, vermelho como estava, ainda meio asfixiado pela grande quantidade de água que havia bebido, não aguentava nem andar direito. Súbito alguém gritou:
--- Rex.... pega... pega... rex...
A esse grito, os dois somente entreolharam um para o outro, sem comando algum se levantaram juntos e correndo, atravessaram o quintal da mal escolhida casa, mergulhando no final deste, por cima da outra cerca que divisava com a rua, deixando do outro lado aquele ti-tiu a latir grosso e a maldizer o seu atraso para sair no encalço deles.
Na caída, já do outro lado da rua, o solidário Luís, sentiu que seu joelho tinha se avariado. E enquanto soprava-o e se esbravejava de dor, Jaci se levantou porque divisou o ônibus da Pássaro Marrom, que neste horário fazia a linha Itagaçaba-Centro, e se aproximava.
O ônibus estava quase lotado, porque dentro, ele levava os funcionários da Companhia de Papeis, e como, apesar do sufoco que acabava de passar, parecia pelo menos por hora mais inteiro que o seu amigo do joelho emperrado, fez logo sinal com a mão, e o coletivo parou. Imediatamente.
Adentraram os dois, Luís manquitolando e o Jaci bastante ofegante pelo cansaço, e os dois bastante molhados e sujos. Logo que sentaram e o ônibus se arrancou, os passageiros sentiram o cheiro de esgoto que exalava da roupa dos dois, e então começaram a reclamar num alvoroço só, com o motorista. A impressão que os passageiros tinham, era que eles haviam feito suas necessidades na roupa. E tão logo, este cheiro, vindo de trás chegou nas narinas do condutor do veiculo, este então esperou só a travessia da ponte sobre o rio Paraíba do Sul, e deu uma freada brusca. Virou então rapidamente para trás e os mandou descer imediatamente, enquanto apertava o seu nariz com os dedos indicador e polegar.
Nessa hora não tinha um passageiro que não tivesse colocado sua cabeça para fora da janela, para poder respirar.
Desceram, e quando o ônibus saiu, descortinou-se diante deles, em meio ao pessoal que saía da fábrica, o Fiat branco da equipe de Televisão, vindo em disparada com seu espetacular repórter gritando, e trazendo seu dedo em riste.
--- Veja... são eles... ali... ó...
O momento não era de calma, aliás ditava-se até que deveria ser de “muita velocidade”. No entanto, estavam os dois parados sem saber o que fazer, seus olhares novamente se cruzaram no ar, e o Luís então quebrou o gelo.
--- E agora?...
Antes que o Jaci ousasse responder, um grito ecoou no ar...
--- Jaci!... Luís Paulo!... Aqui...
Era o inseparável amigo Lira. Cabelos prateados pelo tempo, olhos pequenos, rosto esguio onde sobressaía o nariz e o maxilar superior, alto, não muito gordo, aparentando mais ou menos sessenta anos. Estava ele com o seu carro, um caravam de cor creme, ano 79, estacionado perto do viaduto que fica por sobre a Estrada de Ferro, com os faróis já acesos e o motor ligado. Num relâmpago, os dois amigos chegaram no carro que por sua vez, se apressou em subir a ponte, e disparou em velocidade.
Quando o carro saiu, o Lira que até aí estava se divertindo com a situação dos dois, virou para trás e perguntou.
--- Companheiros... pra onde?
Mal acabou de perguntar e sentiu todo o odor dos dois amigos, e virando para frente novamente, exclamou quase chorando.
--- Meu Deus, o que vocês fizeram com o meu carro!
O Jaci, ali sentado junto ao Luís, falou:
--- Eu juro de pé junto, por tudo que me é mais sagrado, que se eu sair dessa, nunca mais vou mexer com mulher nenhuma.
O caravan então subindo a rua Otton Barcellos, avançou os dois semáforos da mesma rua, e dobrou a seguir na rua Sete, indo estacionar em frente o apartamento do Jaci. Neste momento, o Lira entregou definitivamente os pontos, e vomitou nas suas pernas, no volante e no painel do carro.