domingo, 9 de outubro de 2016
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Lira, e suas proezas
Em Aventuras Pickwickianas...
Lira, e suas proezas
O mês de setembro é visto com muito carinho pela população de Cruzeiro, pois é neste mês que acontece as grandes festas da cidade. E como não poderia deixar de ser, é nesta época que a cidade faz a sua Grande Exposição Agropecuária. E é para lá que os nossos heróis se dirigem, nesta noite do dia sete setembro, afim de esquecer de vez, os malogrados momentos vividos no desfile da manhã.
--- ... agora, o pagamento ainda está longe e eu não tenho dinheiro para mandar substituí-lo...
No palco central, estavam se apresentando a grande dupla sertaneja, Sabiá e Cabecinha de Fogo, dona de um grande sucesso no nosso meio artístico.
E os três então chegaram na famosa Barraca do Peixe, e de pronto começaram a noitada. Jaci e Luís, se divertiam bastante cantando baixinho, junto com a dupla de cantores da capital. Mas todo este entusiasmo dos dois, não conseguia contagiar nosso amigo Lira, este estava visivelmente chateado com o problema do carro, e a impossibilidade de troca-lo já. O tempo passa e o agradável show termina, “os passarinhos” se despedem e o público aplaude entusiasticamente, enquanto eles descem do palco e se retiram para seus camarins.
O alto-falante central anuncia agora que o rodeio está prestes a começar. Este anuncio então cai como uma bomba no meio deles, a ponto de despertar o saudosismo do Lira. E ele então começa a relembrar o tempo em que seu avô tinha uma fazenda, e por lá ele aparecia por ocasião das férias escolares. Até que ele começou bem este assunto, mas depois que seus amigos começaram a se interessar pela sua história, então começou também a exagerar um pouco e dando asas à sua imaginação, fantasiava.
--- ... é, era um burro chucro... e eu era o único que conseguia montá-lo.
--- Mas, seu avô era muito sem juízo. Disse o Jaci, tentando rebater a fanfarronada do amigo. E continuou:
... deixar um garoto de dez anos montar um burro chucro, esta é de espantar...
--- Que nada, ele tinha era o maior prazer de me ver montar... e quando eu chegava ele até dizia “agora chegou quem vai acabar com a boa vida daquele chucro”... mas era um tempo bom... tenho muitas saudades.
Mas tanto o Jaci quanto o Luís, “conheciam muito bem seu eleitorado”, e quando o Lira começou com seus costumeiros exageros, eles também começaram a não ligar para o que ele estava falando. O rodeio continua na arena, mas os três continuam na Barraca, deixando se “picar pela cobra de vidro”. Subitamente a musica para, faz-se um breve silêncio e o locutor anuncia:
“... Atenção senhoras e senhores: numa cortesia da Funerária Vai Com Deus, será dado ao pião principiante, de qualquer idade, que conseguir permanecer mais tempo em cima do burro, a quantia de trezentos reais. Quem quiser concorrer, é só se apresentar aqui em nossa arena...”
O Jaci nesta hora engasgou com a cachaça que estava tomando e num misto de querer falar, engolir e tossir, fica agitado batendo sem parar no ombro do Lira. O Luís vendo a aflição do amigo, da um tapa nas suas costas, aí então o Jaci pigarreou, limpou a garganta e começou a falar.
--- Aí Lira, a oportunidade que você queria para resolver o problema do carro... e mais, dá até para você reformar o carro todo...
Enrubescido e pego no contra-pé, o Lira se estremece todo e tenta sair pela tangente.
--- Não... eu montei mesmo mas faz muito tempo... estou sem prática...
--- merda..., interviu o Luís, quem foi rei sempre será majestade...
--- Isso mesmo, Lira. Completou Jaci, e continuou a jogar “confete” no amigo. Só se aquilo que você falou da fazenda do seu avô, não for verdade...
Essa conversa estava deixando o Lira muito nervoso, aliás todo mentiroso fica mesmo muito bravo, quando percebe que alguém está tentando desmascara-lo. Mas enquanto os dois amigos tentam convence-lo a entrar no rodeio, o Lira deu uma olhada por cima daquele povo que estava aglutinado em volta da arena, como se estivesse tentando medir o tamanho de sua vergonha, se tentasse montar o tal cavalo. Mas para o azar dele, nesta sua olhada, viu a figura expressiva e marcante do seu chefe e sua digníssima esposa, assistindo o rodeio.
Numa fração de segundo ele “viajou” e nesta viajem pensou na admiração que o seu chefe teria por ele, se o visse montar e ganhar aquele prêmio.
E pensando assim, se levantou e começou a caminhar para o local do concurso. Jaci ia do seu lado, dando-lhe as últimas instruções:
--- ... segura no arreio, comprime as pernas na barriga do animal, e tudo vai terminar numa boa...
O Luís , embora cambaleante por causa da bebida, ia também ao seu lado dando a maior força para o nosso peão.
--- Vamos Lira... esse cavalinho, não é nem a sombra daquele burro chucro do seu avô...
Ao chegar perto do curral, Lira teve vontade de voltar atrás e falar que aquilo tudo era mentira, e que ele nunca tinha montado realmente. Mas, infelizmente agora já era muito tarde para retornar, “seu barco já tinha desgarrado e já estava em alto mar”.
O controlador dos peões, enfiou-lhe na cabeça um chapéu de palha, todo sujo e molhado de suor, e batendo-lhe no ombro disse.
O controlador dos peões, enfiou-lhe na cabeça um chapéu de palha, todo sujo e molhado de suor, e batendo-lhe no ombro disse.
--- Sua vez... vamos..., e jogando-o contra a parede do box de tábua, continuou falando. ... suba... vamos.
O Jaci mais que depressa ajudou-o na tarefa de subir na cerca. O Luís, este não, já tinha conseguido um lugar estratégico, estava sentado na ultima tábua do cercado, aguardando o espetáculo começar. Lugar este que ele só conseguiu porque estava bêbado, e sendo assim bêbado sempre tem "preferencia".
O Lira então começou a subir, e as suas pernas tremiam tanto que era preciso que o Jaci as guiasse com as mãos, por entre as tábuas. Seus olhos não vê outra coisa senão aquele monstro que estava dentro do box aguardando-o.
Já em cima, com as pernas abertas e colocadas nas duas cercas que delimita a gaiola, tremendo como uma vara verde, aguarda o sinal de partida.
Já em cima, com as pernas abertas e colocadas nas duas cercas que delimita a gaiola, tremendo como uma vara verde, aguarda o sinal de partida.
Seu olhar agora cruza com o olhar do burro que virou para trás. Mais tarde o Jaci, que acompanhou esta cena de perto, segredou ao Luís.
--- ... me pareceu que o burro olhou para traz e disse: “coitado”.
A expectativa então se quebra, o sinal é dado e o Lira se solta de sua ancoragem, senta no lombo do animal e imediatamente o portão se abre.
A besta parte em disparada e vai em direção ao local onde está o grande ídolo do Lira: o seu chefe. Parecia até que o Lira tinha o domínio total da situação.
Mas infelizmente, só parecia. Nos três segundos que durou esta corrida, Lira que tinha se sentado no centro do lombo do animal, tinha se escorregado e agora estava em cima da anca do “indomável”. Foi aí que o cavalo estacou e empinou as patas traseiras, na tentativa de dar um coice duplo. Um grito então se ouviu--- socorro...
E o corpo do nosso amigo então cortou o ar num acrobático salto mortal. Dando duas magistrais piruetas, passou por cima da platéia que estava em pé na cerca, e nesta platéia estava incluído o grande “chefe e sua esposa”, e vai direto para dentro da Barraca “ Almoço Rápido”. Logo que ele entrou, saiu um boa quantidade de maionese fresquinha, que desafortunadamente estava em sua rota de colisão.
Um grande barulho se ouviu de dentro da cantina, a mesa que o recebera, graças a Deus, se partiu ao meio e com isso amorteceu sua queda. Mas a maionese que saiu, fez um estrago bem maior para ele, pois emplastou o cabelo da esposa do seu grande ídolo, e de quem mais, estava nas proximidades dela. Em sua raiva o “chefe” simplesmente disse: “que decepção...”, enquanto limpava o cabelo dela com as mãos.
Um grande barulho se ouviu de dentro da cantina, a mesa que o recebera, graças a Deus, se partiu ao meio e com isso amorteceu sua queda. Mas a maionese que saiu, fez um estrago bem maior para ele, pois emplastou o cabelo da esposa do seu grande ídolo, e de quem mais, estava nas proximidades dela. Em sua raiva o “chefe” simplesmente disse: “que decepção...”, enquanto limpava o cabelo dela com as mãos.
O Luís, na confusão que o Lira arrumou, disparou a rir e com isso perdeu o equilíbrio caindo da cerca, e agora estava sentado no mesmo lugar, com a calça toda “molhada”(mijou-se de tanto rir), e um riso descontrolado. Jaci coitado, teve que correr em socorro do amigo, porque o japonês, dono da barraca desmanchada, tentava entre lamentos e choro, pegar o Lira com uma colher de pau na mão.
Mas felizmente junto com o Jaci chega também a polícia e seguram o proprietário furioso, protegendo assim nosso amigo peão, que de peão mesmo não tinha era nada.
E agora sem ambiente na festa, os três resolveram ir para casa.
No caminho, o Lira se conjeturava no seu intimo.
No caminho, o Lira se conjeturava no seu intimo.
--- E o chefe?... como vou encara-lo depois dessa...
sábado, 3 de setembro de 2016
O Sonho do Luis Paulo
Em Aventuras Pckwickianas... Os Tres Inocentes
O Sonho do Luis Paulo
Uma frase bem definida ficou na cabeça do Luís, no dia da
Procissão da Virgem Maria, que acabou tendo aquele desfecho horrível: “Ainda
hei de tocar naquela Banda.”. E como de fato, por esta ocasião, era muito comum
encontrar o Luís andando na rua, assobiando um “dobrado” ou fazendo sons com a boca, imitando um
instrumento metálico. E quando percebia que ninguém estava olhando, aí ele até
exagerava um pouquinho, e marchava também imaginando estar dentro da formação
da nossa querida Banda de Musica.
E tanto fez disso uma ideia fixa, que o Jaci se condoeu e
tentava de todo jeito, ajudá-lo a realizar seu sonho. E um dia, aproveitando a
hora do almoço, o Jaci veio com Lira à
cidade para abastecer o carro. Ao
voltar para a fábrica, passando pela rua
Cinco, viram o chefe do Lira conversando com o maestro da Banda, na calçada
junto à sede da “furiosa”. Aí então, começou a tomar forma o sonho do Luís.
Disse o Jaci.
--- Você viu quem eu acabo de
ver, naquela rua?
--- Você não está vendo que eu
estou na direção?, como eu vou prestar atenção numa coisa que está em outra
rua?. Respondeu o Lira visivelmente de mau humor.
Todavia o pacato Jaci, que
sempre foi o pai da paciência e também bastante
acostumado com o temperamento do colega,
não importou com o tom da resposta,
e continuou falando.
--- Pois eu acabo de ver o seu
chefe conversando com o maestro da Banda. E como eu sei que você é muito
“chegado” ao homem, pode ser que você consiga colocar o Luís naquela Banda,
pois um pedido do “homão”, tenho certeza que o maestro não vai negar.
--- É... mas não é tão fácil
assim, não...
--- Como não é Lira? retrucou o
Jaci. E continuou num tom mais ríspido. Você acha que nós não sabemos que toda
segunda feira, você compra aqui no mercado um queijo para dar de presente a
ele, e fala que trouxe de Sorocaba?
Meio sem jeito e bastante sem graça, Lira respondeu.
--- Tá... tá... não precisa ficar
me agredindo não. Vou ver o que posso fazer.
E a sorte do Luís estava mesmo sendo lançada. Porque
naquele momento, ali defronte da sede da Banda, o chefe do Lira estava
comunicando ao maestro, que o pedido dele com relação à doação, por parte da
Iochpe Maxion, de tambores vazios, tinha sido atendido. E que ele podia desde já
promover a venda dos referidos tambores, como forma de arrecadar fundos para a
corporação. Como se pode ver, justamente por causa desta conversa, bastava
simplesmente aguardar até a próxima segunda feira, dia do queijo do chefe, para
que o plano então funcionasse.
E assim aconteceu, após o almoço, como de costume o Lira
foi até a sala do engenheiro, entregou o
presente rotineiro e fez o pedido. O “grande chefe”, para mostrar sua
satisfação com o presente recebido, pegou o telefone e conversou com o maestro
imediatamente. E a tão sonhada vaga na Banda,
foi arranjada.
Naquela mesma segunda feira o Luís se apresentou na sede.
Os dois amigos acharam por bem não comparecer ao ensaio da Banda, porque
tiveram receio de que a presença dos três, pudesse suscitar “lembranças
desagradáveis” nos componentes da sinfônica. E por outro lado, o maestro achou
que agradando ao Luís, ele estaria automaticamente agradando o engenheiro da
Fábrica. E com isso certamente, poderia estar representando mais tambores para
a campanha de capitação de fundos para a Banda.
Com esse pensamento então, recebeu muito bem o Luís e com um largo
sorriso, perguntou a ele qual o instrumento que ele gostaria de tocar.
--- Eu?!... eu... só sei tocar
baixo tuba. Respondeu o Luís, arriscando este instrumento, porque pensava ser
este, entre todos os instrumentos da corporação, o mais fácil para ele
aprender.
--- Pois não disse o maestro. E
gritando para o musico lá de trás. Juvenal!... ô Juvenal !... passa a tuba para
o Luís e vem cá para o bumbo, que o ensaio já vai começar.
Posições tomadas, o bumbo soou surdo: Bum!, logo em
seguida a caixa de guerra fez: pá... rá... te... Bum!, tornou o bumbo, e logo
os demais instrumentos entraram, começando a execução do Hino Nacional
Brasileiro. Mas o regente, que tinha os ouvidos bem aguçados, logo percebeu que um dois baixos, estava marcando
errado. E como bom observador, bastou olhar pro Luís que com aquele instrumento
enfiado no pescoço, tinha as maçãs do rosto se enchendo de ar justamente na
hora errada. Ali então estava o erro identificado.
Durante a semana
toda o maestro tentou ensinar o Luís, mas ele não conseguia aprender. E o
maestro só continuava insistindo porque
não queria perder os possíveis tambores a mais, que a sua presença podia
proporcionar. E mesmo a contra gosto, o manteve no grupo.
Chegou então o domingo tão esperado, sete de setembro.
Dia da Pátria. Dia de desfile. Dia do Luís. Dia do sonho do Luís. Já na
véspera, ele não conseguia esconder o
seu tamanho entusiasmo. Havia levado seu instrumento para casa ,afim de
limpá-lo e poli-lo. Fez sua esposa Da.
Mariinha lavar, passar e engomar seu
uniforme, que ele chamava carinhosamente de farda. Entretanto, este entusiasmo
excessivo não foi benéfico para ele, seu intestino bambeou de uma jeito, que
fez com que ele passasse toda a noite entrando e saindo do banheiro. Só melhorou
com a ajuda de chás e comprimidos, ministrados pela sua paciente esposa.
Raiou então o dia. E lá vem nosso herói pela rua Quatro
todo engalanado. Sapato preto que era um brilho só, calça azul e jaqueta da
mesma cor, mas com meia dúzia de botões dourados, verticalmente colocados no
peito. Nos ombros dois laços, que mais parecia duas condecorações militares.
Tinha seu instrumento enfiado no pescoço, e andava galhardamente, fazendo se notar por todos que encontrava na rua.
Vinha para o tão esperado desfile. Vinha todo feliz da vida.
O ponto de encontro combinado foi em frente ao antigo Cine Palácio. O Luís foi
o primeiro a chegar, somente uma hora depois, é que começaram a chegar os
outros músicos. E às dez horas, o maestro reuniu os músicos para a formação,
nesta hora então segredou baixinho no ouvido do Luís:
--- Luís, tira o bico do
instrumento e põe no bolso.
--- Mas... como é que eu vou
tocar?, perguntou ele.
--- Veja bem Luís... você ainda
não sabe tocar direito. E eu não posso correr o risco, de que você toque
errado. Alem do mais, ninguém vai ficar sabendo deste nosso acordo, pois isso
ficará só entre nós dois. Entendeu?
--- Mas...
--- Não Luís, definitivamente,
não. E depois... veja bem, você vai fazer tudo como se fosse realmente um
músico... e ninguém vai desconfiar de nada. Ok?
--- Tá né... o senhor quer
assim... e o nosso herói não teve como discordar...
![]() |
| O Luis Paulo é o musico que se vê somente o seu instrumento, nnesta foto. É o Baixo Tuba que se vê ao fundo |
Desta forma então,
começa o desfile. A praça estava repleta de gente. Todo mundo esbarrando em
todo mundo. O cordão de isolamento que a prefeitura tinha colocado, era
empurrado para afrente, e estreitava até mesmo a pista por onde ia passar as
agremiações escolares, a Banda e o Tiro de Guerra. E depois de um certo tempo,
chega então a hora da banda desfilar. Como havia somente duas tubas, porque a
terceira tinha se danificado com a bombinha “cabeça de negro” no dia da
procissão, o Luís foi colocado no final da formação, na ala esquerda, e a
outra, na mesma posição porem na ala direita. E a marcha vai acontecendo, com a
Banda descendo a rua Capitão Neco.
Numa visão geral, até que estava bonito o desfile, só não
se podia reparar no Luís, porque por causa do joelho encrencado, era o único
que ia com o passo errado. E tocando o Hino Nacional, logo eles penetraram na
região da praça, para o Luís era o
êxtase total. Seus olhos nem olhava para a partitura, porque alem de estar só
fazendo mímica com o instrumento, ele procurava pela Da. Mariinha que estava
ali em algum lugar junto com suas filhas, somente para vê-lo desfilar.
A
corporação agora passa debaixo do palanque das autoridades e segue. Quando
chega na esquina da prefeitura, a ala direita faz o pião e a formação muda de
rua, indo agora garbosamente na rua
Três. Foi nesta esquina que o Luís
encontrou quem ele tanto procurava, sua família. De longe seus olhos brilharam,
um semblante alegre se estampou em seu rosto, seu olhar então se fixou em sua
prole, e não mais saiu. Era o clímax total, sua família, ele com aquela tão
sonhada “farda” e seu bonito instrumento. A esta altura, ele passou a soprar
com mais força ainda para que ninguém
percebesse que não estava tocando.
Neste momento, o companheiro da frente,
obedecendo a marcação do pião direito, começa
mudar a direção, mas o Luís coitado, não percebe o que está acontecendo
e segue reto. O povo que estava no meio da rua, embora compactado, faz a
abertura e o Luís que não tirava os olhos da sua família, desgarra-se do resto
da corporação. Com a passagem dele, a abertura
se fecha. Só então aí, que o Luís
se deu conta de que estava totalmente fora do desfile.
Voltou depressa pedindo
licença, e empurrando todo mundo. Quem via de longe a cena, só via aquela bacia
prateada por cima das cabeças do povo, balançando de um lado para o outro. Com
muito custo chegou novamente na passarela, mas só que agora, quem está desfilando é o Tiro de Guerra, e a banda
já ia a uns cinqüenta metros à frente. Não tendo outra saída, o Luís entrou no
meio do primeiro pelotão militar, com a meta de alcançar a Banda.
Nunca se viu
tanta gente nesta praça, como no dia de hoje para ver o desfile. As calçadas
da ruas eram pequenas para conter tanta gente, de forma tal que o povo ia
estreitando até a passarela do desfile. No pelotão militar, dava para se ver
que um soldado marchando, quase esbarrava a mão no corpo do companheiro do
lado. E infelizmente, este era o caminho que o Luís tinha que passar, para se
juntar novamente à sua turma.
E começou a correr, só que nesta corrida, sua
tuba balançava muito e em seu movimento de vai e vem, começou a bater na cabeça
dos soldados, e derruba o gorro de um deles. Este infeliz, abaixou então rapidamente para apanha-lo. O
colega de trás, não viu que ele tinha se abaixado, e em conseqüência tropeçou e
caiu por cima, e aí outro, depois outro e começaram a se amontoar. A multidão,
que adora ver o mal feito, começou a rir com a situação cômica que o nosso
“musico” havia provocado.
Nesta hora o maestro ouvindo a balbúrdia, olhou para
trás e viu o Luís no meio do destacamento com a sua tuba, e os reservistas
embolados no chão. Sua raiva foi tanta que seus olhos ameaçaram sair das
órbitas, seus cabelos ficaram em pé e ele promete a si mesmo que o Luís
não ficaria na Banda nem mais um minuto após o desfile terminar, mesmo que ele
viesse a perder mil tambores vazios.
Neste momento as autoridades que estavam
no palanque, vendo o que acontecia, viram de costas para poder rir, e coincide
exatamente com a passagem por eles do Pavilhão Nacional. Ninguém conseguia
ficar sério diante daquelas cenas. E o
Luís continuava “arrasando” o desfile.
Esta bagunça, acontecia ali em frente a
loja Irmãos Pinto, e ali na calçada trepado em um caixote de lixo, estava o
Jaci tendo a seu lado o Lira, e eram os únicos a não acharem graça da situação.
Pois ali estavam para ver seu amigo desfilar e não se conformavam com os acontecimentos
delineados.
E como ato final, em sua pressa para alcançar a sua agremiação,
Luís tropeça num fuzil caído e tomba para frente, se estatelando no chão. Aí
então foi demais para os dois amigos que estavam ali ao lado, Lira e Jaci
correm e levantam o amigo Luís, que está agora com os ombros machucados pelo
pesado instrumento. Mas sua reclamação é outra:
--- O meu joelho... ele é que foi
o culpado...
A Banda tinha parado, aliás o desfile todo tinha parado,
quando se ouviu o barulho estridente da tuba no chão. E os músicos viraram para
trás, e eles, inclusive o maestro, reconhecem os três personagens do dia da
procissão.
--- São eles... aqueles três...
vamos pega-los...
--- Por aqui, disse o Lira,
puxando os dois e se infiltrando no meio da multidão, depois correndo para
pegar o caravam que estava estacionado em frente ao Banco do Brasil. Com muito
custo entraram no carro e quando este consegue sair, já estava começando a ser
esmurrado pelos primeiros soldados, músicos e inclusive o maestro, que adoraria
pegar os três e principalmente o desastrado Luís Paulo.
sábado, 27 de agosto de 2016
As Bombinhas do Jaci
Em Aventuras Pickwickianas, Os Tres Inocentes
Jaci e suas bombinhas
Era o dia
trinta e um de maio, e o relógio marcava dezenove horas em ponto. Os três
grandes e inseparáveis amigos se encontram na praça da Matriz de Nossa Senhora
da Conceição. O dia era muito especial para eles, era dia de procissão.
O Luís,
mesmo manquitolando por causa do joelho e machucado no “trem de aterrissagem”,
não podia faltar, pois era apaixonado por banda de musica. Jaci, mesmo com o
maxilar inferior bastante dolorido, não arredava o pé da pracinha, esperando
ansiosamente a hora de soltar suas bombinhas do tipo “cabeça de negro”, que
trazia no bolso da calça. Este era fanático por fogos de artificio, e vibrava
com todos , busca pé, chuva de prata, rojões, etc.. E depois que o andor
entrasse dentro da igreja, era então a hora tão esperada por ele, hora de soltar os rojões. O Lira era dos três
o mais equilibrado, muito religioso, não perdia uma procissão. Era realmente um
verdadeiro exemplo de pura
religiosidade.
O cortejo ia
chegando e já estava com o andor da Virgem Maria, próximo da primeira árvore da praça, logo
atrás vinha a gloriosa Banda Primeiro de Maio, tocando um dos “dobrados” que o
Luís mais gostava. O Lira estava ajoelhado na grama, esperando o andor entrar
na porta principal do Templo. Ao seu lado estava o Jaci já bastante excitado,
aguardando o momento de soltar as bombinhas. Sua ansiedade era tamanha, que ele
já estava com uma delas na mão, encostada na caixa de fósforo, pronto para
atrita-la. No seu rosto, um sorriso eternecedor, parecia até uma criança. Do
outro lado, estava o Luís com os olhos lacrimejantes de alegria e
contentamento, em ver os valorosos músicos vestidos com aquela farda azul e
aquele quepe do tipo militar na cabeça. E em seu íntimo dizia para si mesmo:
--- Um dia ainda realizarei
meu sonho de tocar nesta Banda...
Foi neste exato momento que o passarinho que estava dormindo no galho da árvore, e este por sua vez estava por sobre os três,
defecou. O estrume fresco, caiu exatamente na cabeça do Lira, que se assusta e
tenta se levantar puxando o braço do Jaci, para que servisse de apoio. Ao ter
seu braço puxado, a bombinha se atrita na caixa de fósforos e se incendeia.
Jaci então se assusta com a bombinha fumegante na sua mão, e apavorado atira-a
para cima. E não é que ela vai então
direto para dentro do Baixo Tuba, do musico que desfilava na fila do meio da
corporação. Foi um estouro só. O coitado do musico sentiu que a sua prótese,
forçou passagem pela sua garganta e cai desmaiado. O corpo do instrumento,
sofreu primeiro um estufamento, que logo depois se rompeu, abrindo uma fenda
enorme. A musica instantaneamente pára. Todo mundo olha para os três. Luís
então sussurra baixinho no ouvido do Jaci.
--- Disfarça... disfarça....
abaixa esta mão Jaci, que está todo mundo olhando para nós...
Este incidente, provocou uma reação em cadeia, todos os
músicos partiram ao mesmo tempo pra cima deles. E eles não tiveram outra
alternativa, senão partir em disparada na direção da Padaria Pão Quente. E
vocês já viram músicos correrem com seus instrumentos na mão? Pois é, é muito engraçado. Principalmente a flauta,
ela faz um som assim fiiiiooouuuuiiii.
Luís corria à frente, e podia até ser considerado um
herói, porque com a bunda ralada e o joelho encroado, fazia milagre em
manter-se à frente do grupo. Em segundo vinha o Jaci, o roliço suava horrores
para carregar aquela sua dilatada barriga, que o impedia de ver onde colocava
os pés. E em terceiro o Lira, com suas pernas compridas ao dobra-las para frente do peito, quase
esbarrava em seu próprio queixo, e parecia mais um soldado inglês, em marcha
acelerada. E por último dez, quinze ou vinte músicos, em todos duas coisas em
comum, a raiva e a vontade de virar os três pelos avessos.
Mas a Providencia Divina sempre os ajuda. Quando chegaram
na esquina da rua Seis, um caminhão passou em disparada indo no sentido da
rodoviária. E os três como se tivesse ensaiado, penduram-se na traseira dele e
escaparam assim da fúria da “furiosa”.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Festa Rotunda
Em Aventuras Pickwickianas... Os Três Inocentes.
O Lira então, consegue se libertar do estado de choque em que estava, e corre em auxílio ao amigo que estava preso na roda. Chegando na cabina, completamente apavorado, não vê que pegou a alavanca errada, e ao acioná-la, fez o pobre do Luís dar mais uma volta completa em cinco segundos, passando sentado pela plataforma de embarque, e subindo outra vez, gritando sem parar.
Festa na Rotunda
Forte era o
vínculo de amizade entre os três, de maneira
que onde ia um, os outros dois
acompanhava sem contestar.
E então, depois daquela mal fadada tarde, que
se projetava ser tão tranqüila, e que no entanto acabou no que acabou, eles bem
que ficaram sem se ver por uns três dias. A vergonha foi tanta que nem na fábrica
apareceram para trabalhar, com medo dos comentários maldosos dos colegas. E dos
três, o Lira era o que mais temia esta
situação, por que em vista da verdadeira adoração que nutria pelo seu
chefe, não admitia de forma alguma, que
ele viesse a saber do ocorrido.
Mas a vida continua, e então passados estes dias de
isolamento, a “poeira baixou” e eles
então se procuraram, e se encontraram no apartamento do Jaci, que fica situado
ali na rua Sete.
Lira chegou
primeiro e enquanto conversava com o Jaci e
se preparava para se sentar no sofá, ouviu fortes batidas à porta. Era o
Luís que também chegava.
--- Onde é que nós vamos
hoje? Foi logo perguntando ao entrar.
--- Depende de vocês. Respondeu o Lira, e completou. ...
vocês sabem que eu topo tudo, menos beber...
--- Olha, aconselhou o Jaci,
como o Luís está com este joelho
avariado, e eu continuo com as
pernas duras por causa daquela correria, parece até que engoli uma alavanca, acho que devemos ir aqui
perto mesmo, na Rotunda.
--- Porque?... o que é que tem lá pra gente ver? Perguntou o Lira.
--- Ah!... é a festa de
Santa Cruz, todo ano ela acontece ali... e é muito boa. Disse o Luís esfregando
as mãos, num gesto característico de quem gostou da idéia.
Como não houve objeção, de pronto saíram.
Durante a
caminhada o assunto reinante entre os três, não podia ser outro senão, a epopeia vivida por eles, três dias atrás. E
dizia então o Lira, fazendo alusão ao seu carro.
--- Tive que trocar o pano
do banco traseiro, e boa parte da espuma do banco... e o que é pior, ainda tive
que pagar o dobro do que normalmente é cobrado para fazer o trabalho, porque
ninguém queria botar a mão no meu carro... também com aquele cheiro...
--- Ah!, isso não foi nada,
replicou o Luís, ... pior foi convencer a minha mulher que eu tinha caído numa
fossa, quando voltava para casa, depois do trabalho.
--- Chato né... interpelou o
Jaci,. ... e por acaso algum de vocês viu o tele-jornal?... e... e viram se saiu alguma coisa envolvendo o nosso
nome?
--- Quanto a isso, pode
ficar tranqüilo, eu assisti todos os três dias e não saiu nada... mas afinal
eles também não conseguiram fazer a filmagem... iam mostrar o quê?
E nesse choro
de “Madalenas arrependidas”, chegaram na festa. Havia muita gente, muita
iluminação, barracas de pipoca, de bingo, de peixinhos, de argolas, de
cervejas...epa! lá estavam eles prontos para “tomarem todas”, já o Lira não,
este se divertia apenas comendo salgadinhos, agora mesmo estava com um bom
pedaço de linguiça na mão.
Ali naquela
barraca ficaram por mais de uma hora, tempo mais que suficiente para que os
dois, Jaci e Luís, tomassem umas sete ou oito pingas cada um, enquanto se
deliciavam com as musicas que jorravam, de dentro daquela enorme caixa
acústica, plantada no meio da praça.
Cansado de ali
ficar e inconformado com o excesso de bebida ingeridas pelos dois amigos, Lira
então os chamou para dar uma volta pela área da festa. Sua intenção era das
melhores, mas infelizmente, foi aí neste ponto, “que a vaca foi pro brejo”. Já
manquitolando por causa do joelho e empurrado pelas excessivas doses de
cachaça, Luís andava como se estivesse “cercando porco”. Jaci, por sua vez
suava na testa como se estivesse praticando um esporte, sem falar na cor
avermelhada de sua pele, que mostrava muito bem o alto grau etílico em que se
encontrava. Detiveram-se do lado da roda gigante do Parque de diversões, que abrilhantava
também a festa.
E conversa vai
conversa vem. Dois moleques brincando de pega-pega, passa correndo entre os
três amigos que estavam ali conversando. Só que ao passar no meio deles, sem querer esbarram no Luís que a esta
altura, já não era mais dono de seu equilíbrio, fazendo-o girar nos
calcanhares, ao mesmo tempo que pende seu corpo para dentro do cercado que
isola o aparelho. Para não cair feio, o Luís por ser muito alto, passou a perna
por cima do cercado e sai correndo com o
corpo curvado, paralelamente à grande roda. Em determinado ponto da sua
trajetória, consegue parar de correr. Ali então balança o corpo equilibrando-se
novamente, e sorriu para os amigos mostrando que não estava tão bêbado assim.
Entretanto, na posição que ele conseguiu parar, praticamente, não ficou folga
nenhuma entre ele e a roda gigante. Tanto que o gancho que protege os dois
passageiros, que estão sentados num dos vários bancos da roda, se prende na
cinta da calça do Luís, e o carrega para cima.
Atônito com
tudo isso, apesar de estar sóbrio, o Lira ficou completamente sem ação. Jaci
então, mesmo bêbado, tenta partir para a cabina de controle do brinquedo, mas
ao virar rapidamente nesta direção, esbarra violentamente na namorada de um
cara que está neste exato momento,
passando por detrás dele e cai. Na ânsia
de evitar esta queda, procura alguma coisa que pudesse se segurar, e a única
coisa que estava por perto, era a saia desta mulher, que ele ao segurar-se
nela, desce também com ele. A mulher ao se ver só de calcinha, grita
histericamente. E esta foi a última coisa que o Jaci viu, antes do punho
fechado do forte namorado dela, se chocar com seu rosto vermelho.
E o pobre do
Luís continua subindo e gritando
--- Socorro... me tirem
daqui... socorro...
O Lira então, consegue se libertar do estado de choque em que estava, e corre em auxílio ao amigo que estava preso na roda. Chegando na cabina, completamente apavorado, não vê que pegou a alavanca errada, e ao acioná-la, fez o pobre do Luís dar mais uma volta completa em cinco segundos, passando sentado pela plataforma de embarque, e subindo outra vez, gritando sem parar.
Finalmente o maquinista, que tinha ido ao
banheiro, chega e afastando o Lira, controla o movimento da roda, que vai
parando devagar na plataforma, e liberta o Luís.
Com o aparelho
parado, Lira chegou até o Luís, que a esta altura já não tinha mais muita coisa
de moreno não, estava era branco como uma cera. Levantou-o, e ele voltou a
cair, pois suas pernas não conseguiam se firmar no chão. Com muito custo
apoiando-se no ombro do amigo, Luís deixou o recinto da plataforma de embarque.
Suas nádegas estavam raladas e sangrava um pouco. Apresentava também um forte vergão na altura da barriga, feito pela
cinta que o suportou no ar. E a custura da calça, chamada de cóz, penetrou-lhe
por baixo e por pouco não o dividiu em dois.
Caminhado assim
com dificuldade, chegaram no Jaci. O
gordinho estava dormindo que nem um anjinho, tinha até um leve sorriso lábios.
Acordaram-no com leves tapinhas no rosto e algumas sacudidelas, e trataram de
ir logo para casa.
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