sábado, 27 de agosto de 2016

As Bombinhas do Jaci

Em Aventuras Pickwickianas, Os Tres Inocentes


 

Jaci e suas bombinhas





Era o dia trinta e um de maio, e o relógio marcava dezenove horas em ponto. Os três grandes e inseparáveis amigos se encontram na praça da Matriz de Nossa Senhora da Conceição. O dia era muito especial para eles, era dia de procissão.
O Luís, mesmo manquitolando por causa do joelho e machucado no “trem de aterrissagem”, não podia faltar, pois era apaixonado por banda de musica. Jaci, mesmo com o maxilar inferior bastante dolorido, não arredava o pé da pracinha, esperando ansiosamente a hora de soltar suas bombinhas do tipo “cabeça de negro”, que trazia no bolso da calça. Este era fanático por fogos de artificio, e vibrava com todos , busca pé, chuva de prata, rojões, etc.. E depois que o andor entrasse dentro da igreja, era então a hora tão esperada por ele,  hora de soltar os rojões. O Lira era dos três o mais equilibrado, muito religioso, não perdia uma procissão. Era realmente um verdadeiro exemplo de  pura religiosidade.
O cortejo ia chegando e já estava com o andor da Virgem Maria,  próximo da primeira árvore da praça, logo atrás vinha a gloriosa Banda Primeiro de Maio, tocando um dos “dobrados” que o Luís mais gostava. O Lira estava ajoelhado na grama, esperando o andor entrar na porta principal do Templo. Ao seu lado estava o Jaci já bastante excitado, aguardando o momento de soltar as bombinhas. Sua ansiedade era tamanha, que ele já estava com uma delas na mão, encostada na caixa de fósforo, pronto para atrita-la. No seu rosto, um sorriso eternecedor, parecia até uma criança. Do outro lado, estava o Luís com os olhos lacrimejantes de alegria e contentamento, em ver os valorosos músicos vestidos com aquela farda azul e aquele quepe do tipo militar na cabeça. E em seu íntimo dizia para si mesmo:
--- Um dia ainda realizarei meu sonho de tocar nesta Banda...
                   Foi neste exato momento que o passarinho que estava  dormindo no galho da árvore, e este  por sua vez estava por sobre os três, defecou. O estrume fresco, caiu exatamente na cabeça do Lira, que se assusta e tenta se levantar puxando o braço do Jaci, para que servisse de apoio. Ao ter seu braço puxado, a bombinha se atrita na caixa de fósforos e se incendeia. Jaci então se assusta com a bombinha fumegante na sua mão, e apavorado atira-a para cima. E não é que ela  vai então direto para dentro do Baixo Tuba, do musico que desfilava na fila do meio da corporação. Foi um estouro só. O coitado do musico sentiu que a sua prótese, forçou passagem pela sua garganta e cai desmaiado. O corpo do instrumento, sofreu primeiro um estufamento, que logo depois se rompeu, abrindo uma fenda enorme. A musica instantaneamente pára. Todo mundo olha para os três. Luís então sussurra baixinho no ouvido do Jaci.
--- Disfarça... disfarça.... abaixa esta mão Jaci, que está todo mundo olhando para nós...
                Este incidente, provocou uma reação em cadeia, todos os músicos partiram ao mesmo tempo pra cima deles. E eles não tiveram outra alternativa, senão partir em disparada na direção da Padaria Pão Quente. E vocês já viram músicos correrem com seus instrumentos na mão? Pois é,  é muito engraçado. Principalmente a flauta, ela faz  um som assim fiiiiooouuuuiiii.
           Luís corria à frente, e podia até ser considerado um herói, porque com a bunda ralada e o joelho encroado, fazia milagre em manter-se à frente do grupo. Em segundo vinha o Jaci, o roliço suava horrores para carregar aquela sua dilatada barriga, que o impedia de ver onde colocava os pés. E em terceiro o Lira, com suas pernas compridas ao  dobra-las para frente do peito, quase esbarrava em seu próprio queixo, e parecia mais um soldado inglês, em marcha acelerada. E por último dez, quinze ou vinte músicos, em todos duas coisas em comum, a raiva e a vontade de virar os três pelos avessos.
                   Mas a Providencia Divina sempre os ajuda. Quando chegaram na esquina da rua Seis, um caminhão passou em disparada indo no sentido da rodoviária. E os três como se tivesse ensaiado, penduram-se na traseira dele e escaparam assim da fúria da “furiosa”. 



 

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