Jaci e suas bombinhas
Era o dia
trinta e um de maio, e o relógio marcava dezenove horas em ponto. Os três
grandes e inseparáveis amigos se encontram na praça da Matriz de Nossa Senhora
da Conceição. O dia era muito especial para eles, era dia de procissão.
O Luís,
mesmo manquitolando por causa do joelho e machucado no “trem de aterrissagem”,
não podia faltar, pois era apaixonado por banda de musica. Jaci, mesmo com o
maxilar inferior bastante dolorido, não arredava o pé da pracinha, esperando
ansiosamente a hora de soltar suas bombinhas do tipo “cabeça de negro”, que
trazia no bolso da calça. Este era fanático por fogos de artificio, e vibrava
com todos , busca pé, chuva de prata, rojões, etc.. E depois que o andor
entrasse dentro da igreja, era então a hora tão esperada por ele, hora de soltar os rojões. O Lira era dos três
o mais equilibrado, muito religioso, não perdia uma procissão. Era realmente um
verdadeiro exemplo de pura
religiosidade.
O cortejo ia
chegando e já estava com o andor da Virgem Maria, próximo da primeira árvore da praça, logo
atrás vinha a gloriosa Banda Primeiro de Maio, tocando um dos “dobrados” que o
Luís mais gostava. O Lira estava ajoelhado na grama, esperando o andor entrar
na porta principal do Templo. Ao seu lado estava o Jaci já bastante excitado,
aguardando o momento de soltar as bombinhas. Sua ansiedade era tamanha, que ele
já estava com uma delas na mão, encostada na caixa de fósforo, pronto para
atrita-la. No seu rosto, um sorriso eternecedor, parecia até uma criança. Do
outro lado, estava o Luís com os olhos lacrimejantes de alegria e
contentamento, em ver os valorosos músicos vestidos com aquela farda azul e
aquele quepe do tipo militar na cabeça. E em seu íntimo dizia para si mesmo:
--- Um dia ainda realizarei
meu sonho de tocar nesta Banda...
Foi neste exato momento que o passarinho que estava dormindo no galho da árvore, e este por sua vez estava por sobre os três,
defecou. O estrume fresco, caiu exatamente na cabeça do Lira, que se assusta e
tenta se levantar puxando o braço do Jaci, para que servisse de apoio. Ao ter
seu braço puxado, a bombinha se atrita na caixa de fósforos e se incendeia.
Jaci então se assusta com a bombinha fumegante na sua mão, e apavorado atira-a
para cima. E não é que ela vai então
direto para dentro do Baixo Tuba, do musico que desfilava na fila do meio da
corporação. Foi um estouro só. O coitado do musico sentiu que a sua prótese,
forçou passagem pela sua garganta e cai desmaiado. O corpo do instrumento,
sofreu primeiro um estufamento, que logo depois se rompeu, abrindo uma fenda
enorme. A musica instantaneamente pára. Todo mundo olha para os três. Luís
então sussurra baixinho no ouvido do Jaci.
--- Disfarça... disfarça....
abaixa esta mão Jaci, que está todo mundo olhando para nós...
Este incidente, provocou uma reação em cadeia, todos os
músicos partiram ao mesmo tempo pra cima deles. E eles não tiveram outra
alternativa, senão partir em disparada na direção da Padaria Pão Quente. E
vocês já viram músicos correrem com seus instrumentos na mão? Pois é, é muito engraçado. Principalmente a flauta,
ela faz um som assim fiiiiooouuuuiiii.
Luís corria à frente, e podia até ser considerado um
herói, porque com a bunda ralada e o joelho encroado, fazia milagre em
manter-se à frente do grupo. Em segundo vinha o Jaci, o roliço suava horrores
para carregar aquela sua dilatada barriga, que o impedia de ver onde colocava
os pés. E em terceiro o Lira, com suas pernas compridas ao dobra-las para frente do peito, quase
esbarrava em seu próprio queixo, e parecia mais um soldado inglês, em marcha
acelerada. E por último dez, quinze ou vinte músicos, em todos duas coisas em
comum, a raiva e a vontade de virar os três pelos avessos.
Mas a Providencia Divina sempre os ajuda. Quando chegaram
na esquina da rua Seis, um caminhão passou em disparada indo no sentido da
rodoviária. E os três como se tivesse ensaiado, penduram-se na traseira dele e
escaparam assim da fúria da “furiosa”.


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