Festa na Rotunda
Forte era o
vínculo de amizade entre os três, de maneira
que onde ia um, os outros dois
acompanhava sem contestar.
E então, depois daquela mal fadada tarde, que
se projetava ser tão tranqüila, e que no entanto acabou no que acabou, eles bem
que ficaram sem se ver por uns três dias. A vergonha foi tanta que nem na fábrica
apareceram para trabalhar, com medo dos comentários maldosos dos colegas. E dos
três, o Lira era o que mais temia esta
situação, por que em vista da verdadeira adoração que nutria pelo seu
chefe, não admitia de forma alguma, que
ele viesse a saber do ocorrido.
Mas a vida continua, e então passados estes dias de
isolamento, a “poeira baixou” e eles
então se procuraram, e se encontraram no apartamento do Jaci, que fica situado
ali na rua Sete.
Lira chegou
primeiro e enquanto conversava com o Jaci e
se preparava para se sentar no sofá, ouviu fortes batidas à porta. Era o
Luís que também chegava.
--- Onde é que nós vamos
hoje? Foi logo perguntando ao entrar.
--- Depende de vocês. Respondeu o Lira, e completou. ...
vocês sabem que eu topo tudo, menos beber...
--- Olha, aconselhou o Jaci,
como o Luís está com este joelho
avariado, e eu continuo com as
pernas duras por causa daquela correria, parece até que engoli uma alavanca, acho que devemos ir aqui
perto mesmo, na Rotunda.
--- Porque?... o que é que tem lá pra gente ver? Perguntou o Lira.
--- Ah!... é a festa de
Santa Cruz, todo ano ela acontece ali... e é muito boa. Disse o Luís esfregando
as mãos, num gesto característico de quem gostou da idéia.
Como não houve objeção, de pronto saíram.
Durante a
caminhada o assunto reinante entre os três, não podia ser outro senão, a epopeia vivida por eles, três dias atrás. E
dizia então o Lira, fazendo alusão ao seu carro.
--- Tive que trocar o pano
do banco traseiro, e boa parte da espuma do banco... e o que é pior, ainda tive
que pagar o dobro do que normalmente é cobrado para fazer o trabalho, porque
ninguém queria botar a mão no meu carro... também com aquele cheiro...
--- Ah!, isso não foi nada,
replicou o Luís, ... pior foi convencer a minha mulher que eu tinha caído numa
fossa, quando voltava para casa, depois do trabalho.
--- Chato né... interpelou o
Jaci,. ... e por acaso algum de vocês viu o tele-jornal?... e... e viram se saiu alguma coisa envolvendo o nosso
nome?
--- Quanto a isso, pode
ficar tranqüilo, eu assisti todos os três dias e não saiu nada... mas afinal
eles também não conseguiram fazer a filmagem... iam mostrar o quê?
E nesse choro
de “Madalenas arrependidas”, chegaram na festa. Havia muita gente, muita
iluminação, barracas de pipoca, de bingo, de peixinhos, de argolas, de
cervejas...epa! lá estavam eles prontos para “tomarem todas”, já o Lira não,
este se divertia apenas comendo salgadinhos, agora mesmo estava com um bom
pedaço de linguiça na mão.
Ali naquela
barraca ficaram por mais de uma hora, tempo mais que suficiente para que os
dois, Jaci e Luís, tomassem umas sete ou oito pingas cada um, enquanto se
deliciavam com as musicas que jorravam, de dentro daquela enorme caixa
acústica, plantada no meio da praça.
Cansado de ali
ficar e inconformado com o excesso de bebida ingeridas pelos dois amigos, Lira
então os chamou para dar uma volta pela área da festa. Sua intenção era das
melhores, mas infelizmente, foi aí neste ponto, “que a vaca foi pro brejo”. Já
manquitolando por causa do joelho e empurrado pelas excessivas doses de
cachaça, Luís andava como se estivesse “cercando porco”. Jaci, por sua vez
suava na testa como se estivesse praticando um esporte, sem falar na cor
avermelhada de sua pele, que mostrava muito bem o alto grau etílico em que se
encontrava. Detiveram-se do lado da roda gigante do Parque de diversões, que abrilhantava
também a festa.
E conversa vai
conversa vem. Dois moleques brincando de pega-pega, passa correndo entre os
três amigos que estavam ali conversando. Só que ao passar no meio deles, sem querer esbarram no Luís que a esta
altura, já não era mais dono de seu equilíbrio, fazendo-o girar nos
calcanhares, ao mesmo tempo que pende seu corpo para dentro do cercado que
isola o aparelho. Para não cair feio, o Luís por ser muito alto, passou a perna
por cima do cercado e sai correndo com o
corpo curvado, paralelamente à grande roda. Em determinado ponto da sua
trajetória, consegue parar de correr. Ali então balança o corpo equilibrando-se
novamente, e sorriu para os amigos mostrando que não estava tão bêbado assim.
Entretanto, na posição que ele conseguiu parar, praticamente, não ficou folga
nenhuma entre ele e a roda gigante. Tanto que o gancho que protege os dois
passageiros, que estão sentados num dos vários bancos da roda, se prende na
cinta da calça do Luís, e o carrega para cima.
Atônito com
tudo isso, apesar de estar sóbrio, o Lira ficou completamente sem ação. Jaci
então, mesmo bêbado, tenta partir para a cabina de controle do brinquedo, mas
ao virar rapidamente nesta direção, esbarra violentamente na namorada de um
cara que está neste exato momento,
passando por detrás dele e cai. Na ânsia
de evitar esta queda, procura alguma coisa que pudesse se segurar, e a única
coisa que estava por perto, era a saia desta mulher, que ele ao segurar-se
nela, desce também com ele. A mulher ao se ver só de calcinha, grita
histericamente. E esta foi a última coisa que o Jaci viu, antes do punho
fechado do forte namorado dela, se chocar com seu rosto vermelho.
E o pobre do
Luís continua subindo e gritando
--- Socorro... me tirem
daqui... socorro...
O Lira então, consegue se libertar do estado de choque em que estava, e corre em auxílio ao amigo que estava preso na roda. Chegando na cabina, completamente apavorado, não vê que pegou a alavanca errada, e ao acioná-la, fez o pobre do Luís dar mais uma volta completa em cinco segundos, passando sentado pela plataforma de embarque, e subindo outra vez, gritando sem parar.
Finalmente o maquinista, que tinha ido ao
banheiro, chega e afastando o Lira, controla o movimento da roda, que vai
parando devagar na plataforma, e liberta o Luís.
Com o aparelho
parado, Lira chegou até o Luís, que a esta altura já não tinha mais muita coisa
de moreno não, estava era branco como uma cera. Levantou-o, e ele voltou a
cair, pois suas pernas não conseguiam se firmar no chão. Com muito custo
apoiando-se no ombro do amigo, Luís deixou o recinto da plataforma de embarque.
Suas nádegas estavam raladas e sangrava um pouco. Apresentava também um forte vergão na altura da barriga, feito pela
cinta que o suportou no ar. E a custura da calça, chamada de cóz, penetrou-lhe
por baixo e por pouco não o dividiu em dois.
Caminhado assim
com dificuldade, chegaram no Jaci. O
gordinho estava dormindo que nem um anjinho, tinha até um leve sorriso lábios.
Acordaram-no com leves tapinhas no rosto e algumas sacudidelas, e trataram de
ir logo para casa.


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