quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Festa Rotunda

Em Aventuras Pickwickianas... Os Três Inocentes.



                                            


                                         Festa na Rotunda







  Forte era o vínculo de amizade entre os três, de maneira  que onde ia um, os outros dois  acompanhava sem contestar.

 E então, depois daquela mal fadada tarde, que se projetava ser tão tranqüila, e que no entanto acabou no que acabou, eles bem que ficaram  sem se ver por  uns três dias.  A vergonha foi tanta que nem na fábrica apareceram para trabalhar, com medo dos comentários maldosos dos colegas. E dos três,  o Lira era o que mais temia esta situação, por que em vista da verdadeira adoração que nutria pelo seu chefe,  não admitia de forma alguma, que ele viesse a  saber do ocorrido.

Mas a vida  continua, e então passados estes dias de isolamento,  a “poeira baixou” e eles então se procuraram, e se encontraram no apartamento do Jaci, que fica situado ali na rua Sete.

Lira chegou primeiro e enquanto conversava com o Jaci e  se preparava para se sentar no sofá, ouviu fortes batidas à porta. Era o Luís que também chegava.

--- Onde é que nós vamos hoje? Foi logo perguntando ao entrar.

--- Depende  de vocês. Respondeu o Lira, e completou. ... vocês sabem que eu topo tudo, menos beber...

--- Olha, aconselhou o Jaci, como o Luís está com este joelho  avariado, e eu continuo com as  pernas duras por causa daquela correria, parece até que  engoli uma alavanca, acho que devemos ir aqui perto mesmo, na Rotunda.

--- Porque?... o que  é que tem lá pra gente ver? Perguntou o Lira.

--- Ah!... é a festa de Santa Cruz, todo ano ela acontece ali... e é muito boa. Disse o Luís esfregando as mãos, num gesto característico de quem gostou da idéia.

Como não houve objeção, de pronto saíram.
                     Durante a caminhada o assunto reinante entre os três, não podia ser outro senão,  a epopeia vivida por eles, três dias atrás. E dizia então o Lira, fazendo alusão ao seu carro.

--- Tive que trocar o pano do banco traseiro, e boa parte da espuma do banco... e o que é pior, ainda tive que pagar o dobro do que normalmente é cobrado para fazer o trabalho, porque ninguém queria botar a mão no meu carro... também com aquele cheiro...

--- Ah!, isso não foi nada, replicou o Luís, ... pior foi convencer a minha mulher que eu tinha caído numa fossa, quando voltava para casa, depois do trabalho.

--- Chato né... interpelou o Jaci,. ... e por acaso algum de vocês viu o tele-jornal?... e... e  viram se saiu alguma coisa envolvendo o nosso nome?

--- Quanto a isso, pode ficar tranqüilo, eu assisti todos os três dias e não saiu nada... mas afinal eles também não conseguiram fazer a filmagem... iam mostrar o quê?

E nesse choro de “Madalenas arrependidas”, chegaram na festa. Havia muita gente, muita iluminação, barracas de pipoca, de bingo, de peixinhos, de argolas, de cervejas...epa! lá estavam eles prontos para “tomarem todas”, já o Lira não, este se divertia apenas comendo salgadinhos, agora mesmo estava com um bom pedaço de linguiça na mão.

Ali naquela barraca ficaram por mais de uma hora, tempo mais que suficiente para que os dois, Jaci e Luís, tomassem umas sete ou oito pingas cada um, enquanto se deliciavam com as musicas que jorravam, de dentro daquela enorme caixa acústica, plantada no meio da praça.

Cansado de ali ficar e inconformado com o excesso de bebida ingeridas pelos dois amigos, Lira então os chamou para dar uma volta pela área da festa. Sua intenção era das melhores, mas infelizmente, foi aí neste ponto, “que a vaca foi pro brejo”. Já manquitolando por causa do joelho e empurrado pelas excessivas doses de cachaça, Luís andava como se estivesse “cercando porco”. Jaci, por sua vez suava na testa como se estivesse praticando um esporte, sem falar na cor avermelhada de sua pele, que mostrava muito bem o alto grau etílico em que se encontrava. Detiveram-se do lado da roda gigante do Parque de diversões, que abrilhantava também a festa.

E conversa vai conversa vem. Dois moleques brincando de pega-pega, passa correndo entre os três amigos que estavam ali conversando. Só que ao passar no meio deles,  sem querer esbarram no Luís que a esta altura, já não era mais dono de seu equilíbrio, fazendo-o girar nos calcanhares, ao mesmo tempo que pende seu corpo para dentro do cercado que isola o aparelho. Para não cair feio, o Luís por ser muito alto, passou a perna por cima do cercado e sai  correndo com o corpo curvado, paralelamente à grande roda. Em determinado ponto da sua trajetória, consegue parar de correr. Ali então balança o corpo equilibrando-se novamente, e sorriu para os amigos mostrando que não estava tão bêbado assim. Entretanto, na posição que ele conseguiu parar, praticamente, não ficou folga nenhuma entre ele e a roda gigante. Tanto que o gancho que protege os dois passageiros, que estão sentados num dos vários bancos da roda, se prende na cinta da calça do Luís, e o carrega para cima.

Atônito com tudo isso, apesar de estar sóbrio, o Lira ficou completamente sem ação. Jaci então, mesmo bêbado, tenta partir para a cabina de controle do brinquedo, mas ao virar rapidamente nesta direção, esbarra violentamente na namorada de um cara que está  neste exato momento, passando por  detrás dele e cai. Na ânsia de evitar esta queda, procura alguma coisa que pudesse se segurar, e a única coisa que estava por perto, era a saia desta mulher, que ele ao segurar-se nela, desce também com ele. A mulher ao se ver só de calcinha, grita histericamente. E esta foi a última coisa que o Jaci viu, antes do punho fechado do forte namorado dela, se chocar com seu rosto vermelho.

E o pobre do Luís continua subindo e gritando
--- Socorro... me tirem daqui... socorro...

                             O Lira então, consegue se libertar do estado de choque em que estava, e corre em auxílio ao amigo que estava preso na roda. Chegando na cabina, completamente apavorado, não vê que pegou a alavanca errada, e ao acioná-la, fez o pobre do Luís dar mais uma volta completa em cinco segundos, passando sentado pela plataforma de embarque, e subindo outra vez, gritando sem parar.

 Finalmente o maquinista, que tinha ido ao banheiro, chega e afastando o Lira, controla o movimento da roda, que vai parando devagar na plataforma, e liberta o Luís.

Com o aparelho parado, Lira chegou até o Luís, que a esta altura já não tinha mais muita coisa de moreno não, estava era branco como uma cera. Levantou-o, e ele voltou a cair, pois suas pernas não conseguiam se firmar no chão. Com muito custo apoiando-se no ombro do amigo, Luís deixou o recinto da plataforma de embarque. Suas nádegas estavam raladas e sangrava um pouco. Apresentava também um  forte vergão na altura da barriga, feito pela cinta que o suportou no ar. E a custura da calça, chamada de cóz, penetrou-lhe por baixo e por pouco não o dividiu em dois.


Caminhado assim com  dificuldade, chegaram no Jaci. O gordinho estava dormindo que nem um anjinho, tinha até um leve sorriso lábios. Acordaram-no com leves tapinhas no rosto e algumas sacudidelas, e trataram de ir logo para casa.


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