terça-feira, 13 de setembro de 2016

Lira, e suas proezas

Em Aventuras Pickwickianas...




Lira, e suas proezas


                            O mês de setembro é visto com muito carinho pela população de Cruzeiro, pois é neste mês que acontece as grandes festas da cidade. E como não poderia deixar de ser, é nesta época que a cidade faz a sua Grande Exposição Agropecuária. E é para lá que  os nossos heróis se dirigem, nesta noite do dia sete setembro, afim de esquecer de vez, os malogrados momentos vividos no desfile da manhã.

 O relógio não marcava mais de oito horas, quando os três ali chegaram. O Luís sentia a garganta seca e estava doido para tomar uma dose daquela famosa  “branquinha”,  que tanto gosta. Ainda mais hoje que motivos para isso não lhe faltava. O mesmo acontecia com o Jaci, que já pensava nos até nos tira-gostos deliciosos, da Barraca do Peixe. Lira os acompanhava e durante todo tempo reclamava a perda do vidro traseiro do seu carro, que tinha se quebrado hoje, na hora da fuga.
--- ... agora, o pagamento ainda está longe e eu não tenho dinheiro para mandar substituí-lo...

                                            No palco central, estavam se apresentando a grande dupla sertaneja, Sabiá e Cabecinha de Fogo, dona de um grande sucesso no nosso meio artístico. 
                               
                                  E os três então chegaram na famosa Barraca do Peixe, e de pronto começaram a noitada. Jaci e Luís, se divertiam bastante cantando baixinho, junto com a dupla de cantores da capital. Mas todo este entusiasmo dos dois, não conseguia contagiar nosso amigo Lira, este estava visivelmente  chateado com o problema do carro, e a  impossibilidade de troca-lo já. O tempo passa e o agradável show termina, “os passarinhos” se despedem e o público aplaude entusiasticamente, enquanto eles descem do palco e se retiram para seus camarins.
                                     O alto-falante central anuncia agora que o rodeio está prestes a começar. Este anuncio então cai como uma bomba no meio deles, a ponto de despertar o saudosismo do Lira. E ele então começa a relembrar o tempo em que seu avô tinha uma fazenda, e por lá ele aparecia por ocasião das férias escolares. Até que ele começou bem este assunto, mas depois que seus amigos começaram a se interessar pela sua história,  então começou também a exagerar um pouco e dando asas à sua imaginação, fantasiava.
--- ... é, era um burro chucro... e eu era o único que conseguia montá-lo.
--- Mas, seu avô era muito sem juízo. Disse o Jaci, tentando rebater a fanfarronada do amigo. E continuou:
 ... deixar um garoto de dez anos montar um burro chucro, esta é de espantar...

--- Que nada, ele tinha era o maior prazer de me ver montar... e quando eu chegava ele até dizia “agora chegou quem vai acabar com a boa vida daquele chucro”... mas era um tempo bom... tenho muitas saudades.
                        Mas tanto o Jaci quanto o Luís, “conheciam muito bem seu eleitorado”, e quando o Lira começou com seus costumeiros exageros, eles também começaram a não ligar para o que ele estava falando. O rodeio  continua na arena, mas os três continuam na Barraca, deixando se “picar pela cobra de vidro”. Subitamente a musica para, faz-se um breve silêncio e o locutor anuncia:


“... Atenção senhoras e senhores: numa cortesia da Funerária Vai Com Deus, será dado ao pião principiante, de qualquer  idade, que conseguir permanecer mais tempo em cima do burro, a quantia de trezentos reais. Quem quiser concorrer, é só se apresentar aqui em nossa arena...” 



                             O Jaci nesta hora engasgou com a cachaça que estava tomando e num misto de querer falar, engolir e tossir, fica agitado batendo sem parar no ombro do Lira. O Luís vendo a aflição do amigo, da  um tapa nas suas costas, aí então  o Jaci pigarreou, limpou a garganta  e começou a falar.
--- Aí Lira, a oportunidade que você queria para resolver o problema do carro... e mais, dá até para você reformar o carro todo...

                                 Enrubescido e pego no contra-pé, o Lira se estremece todo e tenta sair pela tangente.
--- Não... eu montei mesmo mas faz muito tempo... estou sem prática...
--- merda..., interviu o Luís, quem foi rei sempre será majestade...
--- Isso mesmo, Lira. Completou Jaci, e continuou a jogar “confete” no amigo. Só se aquilo que você falou da fazenda do seu avô, não for verdade...
                          Essa conversa estava deixando o Lira muito nervoso, aliás todo mentiroso fica mesmo muito bravo, quando percebe que alguém está tentando desmascara-lo. Mas enquanto os dois amigos tentam convence-lo a entrar no rodeio, o Lira deu uma olhada por cima daquele povo que estava aglutinado em volta da arena, como se estivesse tentando medir o tamanho de sua vergonha, se tentasse montar o tal cavalo. Mas para o azar dele, nesta sua olhada, viu a figura expressiva e marcante do seu chefe e sua digníssima esposa, assistindo o rodeio.
                          
                            Numa fração de segundo ele “viajou” e nesta viajem pensou na admiração que  o seu chefe teria por ele, se o visse montar e ganhar aquele prêmio.
                                 
                                  E pensando assim, se levantou e começou a caminhar para o local do concurso. Jaci ia do seu lado, dando-lhe as últimas instruções:
--- ... segura no arreio, comprime as pernas na barriga do animal, e tudo vai terminar numa boa...
                              O Luís , embora cambaleante por causa da bebida, ia também ao seu lado dando a maior força para o nosso peão.
--- Vamos Lira... esse cavalinho, não é nem a sombra daquele burro chucro do seu avô...

                                  Ao chegar perto do curral, Lira teve vontade de voltar atrás e falar que aquilo tudo era mentira, e que ele nunca tinha montado realmente. Mas, infelizmente agora já era muito tarde para retornar, “seu barco já tinha desgarrado e já estava em alto mar”.
                                  O controlador dos peões, enfiou-lhe  na cabeça um chapéu de palha, todo sujo e molhado de suor, e batendo-lhe no ombro disse.
--- Sua vez... vamos..., e jogando-o contra a parede do box de tábua, continuou falando. ... suba... vamos.
                                    O Jaci mais que depressa ajudou-o na tarefa de subir na cerca. O Luís, este não, já tinha conseguido um lugar estratégico, estava sentado na ultima tábua do cercado, aguardando o espetáculo começar. Lugar este que ele só conseguiu porque estava bêbado, e sendo assim bêbado sempre tem "preferencia".
                                  O Lira então começou a subir, e as suas pernas tremiam tanto que era preciso que o Jaci as guiasse com as mãos, por entre as tábuas. Seus olhos  não vê outra coisa senão aquele monstro que estava dentro do box aguardando-o.
                                Já em cima, com as pernas abertas e colocadas nas duas cercas que delimita  a gaiola, tremendo como uma vara verde, aguarda o sinal de partida.
                               
                                 Seu olhar agora cruza com o olhar do burro que virou para trás. Mais tarde o Jaci, que acompanhou esta cena de perto, segredou ao Luís.
                           --- ... me pareceu que o burro olhou para traz e disse: “coitado”.
                                A expectativa então se quebra, o sinal é dado e o Lira se solta de sua ancoragem, senta no lombo do animal e imediatamente o portão se abre.
                               
                                 A besta parte em disparada e vai em direção ao local onde está o grande ídolo do Lira: o seu chefe. Parecia até que o Lira tinha o domínio total da situação. 




                              Mas infelizmente, só parecia. Nos três segundos que durou esta corrida, Lira que tinha se sentado no centro do lombo do animal, tinha se escorregado e agora  estava em cima da anca do “indomável”. Foi aí que o cavalo estacou e empinou as patas traseiras, na tentativa de dar um coice duplo.  Um grito então se ouviu--- socorro... 


                                   E o  corpo do nosso amigo então cortou o ar num acrobático salto mortal. Dando duas magistrais piruetas, passou por cima da platéia que estava em pé na cerca, e nesta platéia estava incluído o grande “chefe e sua esposa”, e vai direto para dentro da Barraca “ Almoço Rápido”. Logo que ele entrou, saiu um boa quantidade de maionese fresquinha, que desafortunadamente estava em sua  rota de colisão.
                                      Um grande barulho se ouviu de dentro da cantina, a mesa que o recebera, graças a Deus, se partiu ao meio e com isso amorteceu sua queda. Mas a maionese que saiu, fez um estrago bem maior para ele, pois emplastou o cabelo da esposa do seu grande ídolo, e de quem mais, estava nas proximidades dela. Em sua raiva o “chefe” simplesmente disse: “que decepção...”, enquanto limpava o cabelo dela com as mãos.
                                    O Luís, na confusão que o Lira arrumou, disparou a rir e com isso perdeu o equilíbrio  caindo da cerca, e agora estava sentado no mesmo lugar, com a calça toda “molhada”(mijou-se de tanto rir), e um riso descontrolado. Jaci coitado, teve que correr em socorro do amigo, porque o japonês, dono da barraca desmanchada, tentava entre lamentos e choro, pegar o Lira com uma colher de pau na mão. 

                                   Mas felizmente junto com o Jaci chega também a polícia e seguram o proprietário furioso, protegendo assim nosso amigo peão, que de peão mesmo não tinha era nada.
                                                                                        E agora sem ambiente na festa, os três resolveram ir para casa.
                                              No caminho, o Lira se conjeturava no seu intimo.

--- E o chefe?... como vou encara-lo depois dessa...




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