sábado, 3 de setembro de 2016

O Sonho do Luis Paulo

Em Aventuras Pckwickianas... Os Tres Inocentes




O Sonho do Luis Paulo



                               Uma frase bem definida ficou na cabeça do Luís, no dia da Procissão da Virgem Maria, que acabou tendo aquele desfecho horrível: “Ainda hei de tocar naquela Banda.”. E como de fato, por esta ocasião, era muito comum encontrar o Luís andando na rua, assobiando um “dobrado” ou  fazendo sons com a boca, imitando um instrumento metálico. E quando percebia que ninguém estava olhando, aí ele até exagerava um pouquinho, e marchava também imaginando estar dentro da formação da nossa querida Banda de Musica.
                              E tanto fez disso uma ideia fixa, que o Jaci se condoeu e tentava de todo jeito, ajudá-lo a realizar seu sonho. E um dia, aproveitando a hora do almoço, o Jaci  veio com Lira à cidade  para abastecer o carro. Ao voltar  para a fábrica, passando pela rua Cinco, viram o chefe do Lira conversando com o maestro da Banda, na calçada junto à sede da “furiosa”. Aí então, começou a tomar forma o sonho do Luís. Disse o Jaci.

--- Você viu quem eu acabo de ver, naquela rua?

--- Você não está vendo que eu estou na direção?, como eu vou prestar atenção numa coisa que está em outra rua?. Respondeu o Lira visivelmente de mau humor. 

                          Todavia o pacato Jaci, que sempre foi o pai da paciência e também bastante  acostumado com o temperamento do colega,  não importou com o tom da  resposta, e continuou falando.

--- Pois eu acabo de ver o seu chefe conversando com o maestro da Banda. E como eu sei que você é muito “chegado” ao homem, pode ser que você consiga colocar o Luís naquela Banda, pois um pedido do “homão”, tenho certeza que o maestro não vai negar.

--- É... mas não é tão fácil assim, não...

--- Como não é Lira? retrucou o Jaci. E continuou num tom mais ríspido. Você acha que nós não sabemos que toda segunda feira, você compra aqui no mercado um queijo para dar de presente a ele, e fala que trouxe de Sorocaba?

                            Meio sem jeito e bastante sem graça, Lira respondeu.

--- Tá... tá... não precisa ficar me agredindo não. Vou ver o que posso fazer.

                           E a sorte do Luís estava mesmo sendo lançada. Porque naquele momento, ali defronte da sede da Banda, o chefe do Lira estava comunicando ao maestro, que o pedido dele com relação à doação, por parte da Iochpe Maxion, de tambores vazios, tinha sido atendido. E que ele podia desde já promover a venda dos referidos tambores, como forma de arrecadar fundos para a corporação. Como se pode ver, justamente por causa desta conversa, bastava simplesmente aguardar até a próxima segunda feira, dia do queijo do chefe, para que o plano então funcionasse.

                           E assim aconteceu, após o almoço, como de costume o Lira foi até a sala do engenheiro,  entregou o presente rotineiro e fez o pedido. O “grande chefe”, para mostrar sua satisfação com o presente recebido, pegou o telefone e conversou com o maestro imediatamente. E a tão sonhada vaga na Banda,  foi arranjada.

                           Naquela mesma segunda feira o Luís se apresentou na sede. Os dois amigos acharam por bem não comparecer ao ensaio da Banda, porque tiveram receio de que a presença dos três, pudesse suscitar “lembranças desagradáveis” nos componentes da sinfônica. E por outro lado, o maestro achou que agradando ao Luís, ele estaria automaticamente agradando o engenheiro da Fábrica. E com isso certamente, poderia estar representando mais tambores para a campanha de capitação de fundos para a Banda.  Com esse pensamento então, recebeu muito bem o Luís e com um largo sorriso, perguntou a ele qual o instrumento que ele gostaria de tocar.

--- Eu?!... eu... só sei tocar baixo tuba. Respondeu o Luís, arriscando este instrumento, porque pensava ser este, entre todos os instrumentos da corporação, o mais fácil para ele aprender.

--- Pois não disse o maestro. E gritando para o musico lá de trás. Juvenal!... ô Juvenal !... passa a tuba para o Luís e vem cá para o bumbo, que o ensaio já vai começar.

                       Posições tomadas, o bumbo soou surdo: Bum!, logo em seguida a caixa de guerra fez: pá... rá... te... Bum!, tornou o bumbo, e logo os demais instrumentos entraram, começando a execução do Hino Nacional Brasileiro. Mas o regente, que tinha os ouvidos bem aguçados,  logo percebeu que um dois baixos, estava marcando errado. E como bom observador, bastou olhar pro Luís que com aquele instrumento enfiado no pescoço, tinha as maçãs do rosto se enchendo de ar justamente na hora errada. Ali então estava o erro identificado.

                        Durante a semana toda o maestro tentou ensinar o Luís, mas ele não conseguia aprender. E o maestro só continuava insistindo   porque não queria perder os possíveis tambores a mais, que a sua presença podia proporcionar. E mesmo a contra gosto, o manteve no grupo.

                        Chegou então o domingo tão esperado, sete de setembro. Dia da Pátria. Dia de desfile. Dia do Luís. Dia do sonho do Luís. Já na véspera, ele não conseguia esconder  o seu tamanho entusiasmo. Havia levado seu instrumento para casa ,afim de limpá-lo e poli-lo. Fez  sua esposa Da. Mariinha lavar,  passar e engomar seu uniforme, que ele chamava carinhosamente de farda. Entretanto, este entusiasmo excessivo não foi benéfico para ele, seu intestino bambeou de uma jeito, que fez com que ele passasse toda a noite entrando e saindo do banheiro. Só melhorou com a ajuda de chás e comprimidos, ministrados pela sua paciente esposa.

                         Raiou então o dia. E lá vem nosso herói pela rua Quatro todo engalanado. Sapato preto que era um brilho só, calça azul e jaqueta da mesma cor, mas com meia dúzia de botões dourados, verticalmente colocados no peito. Nos ombros dois laços, que mais parecia duas condecorações militares. Tinha seu instrumento enfiado no pescoço, e andava galhardamente, fazendo  se notar por todos que encontrava na rua. Vinha para o tão esperado desfile. Vinha todo feliz da vida.

                        O ponto de encontro combinado foi  em frente ao antigo Cine Palácio. O Luís foi o primeiro a chegar, somente uma hora depois, é que começaram a chegar os outros músicos. E às dez horas, o maestro reuniu os músicos para a formação, nesta hora então segredou baixinho no ouvido do Luís:

--- Luís, tira o bico do instrumento e põe no bolso.

--- Mas... como é que eu vou tocar?, perguntou ele.

--- Veja bem Luís... você ainda não sabe tocar direito. E eu não posso correr o risco, de que você toque errado. Alem do mais, ninguém vai ficar sabendo deste nosso acordo, pois isso ficará só entre nós dois. Entendeu?

--- Mas...

--- Não Luís, definitivamente, não. E depois... veja bem, você vai fazer tudo como se fosse realmente um músico... e ninguém vai desconfiar de nada. Ok?

--- Tá né... o senhor quer assim... e o nosso herói não teve como discordar...

O Luis Paulo é o musico que se vê somente o seu instrumento, nnesta foto. É o Baixo Tuba que se vê ao fundo


                         Desta forma  então, começa o desfile. A praça estava repleta de gente. Todo mundo esbarrando em todo mundo. O cordão de isolamento que a prefeitura tinha colocado, era empurrado para afrente, e estreitava até mesmo a pista por onde ia passar as agremiações escolares, a Banda e o Tiro de Guerra. E depois de um certo tempo, chega então a hora da banda desfilar. Como havia somente duas tubas, porque a terceira tinha se danificado com a bombinha “cabeça de negro” no dia da procissão, o Luís foi colocado no final da formação, na ala esquerda, e a outra, na mesma posição porem na ala direita. E a marcha vai acontecendo, com a Banda descendo a rua Capitão Neco.

                         Numa visão geral, até que estava bonito o desfile, só não se podia reparar no Luís, porque por causa do joelho encrencado, era o único que ia com o passo errado. E tocando o Hino Nacional, logo eles penetraram na região da praça,  para o Luís era o êxtase total. Seus olhos nem olhava para a partitura, porque alem de estar só fazendo mímica com o instrumento, ele procurava pela Da. Mariinha que estava ali em algum lugar junto com suas filhas, somente para vê-lo desfilar. 
                       A corporação agora passa debaixo do palanque das autoridades e segue. Quando chega na esquina da prefeitura, a ala direita faz o pião e a formação muda de rua, indo agora  garbosamente na rua Três. Foi nesta  esquina que o Luís encontrou quem ele tanto procurava, sua família. De longe seus olhos brilharam, um semblante alegre se estampou em seu rosto, seu olhar então se fixou em sua prole, e não mais saiu. Era o clímax total, sua família, ele com aquela tão sonhada “farda” e seu bonito instrumento. A esta altura, ele passou a soprar com mais força ainda  para que ninguém percebesse que não estava tocando. 
                          Neste momento, o companheiro da frente, obedecendo a marcação do pião direito, começa  mudar a direção, mas o Luís coitado, não percebe o que está acontecendo e segue reto. O povo que estava no meio da rua, embora compactado, faz a abertura e o Luís que não tirava os olhos da sua família, desgarra-se do resto da corporação. Com a passagem dele, a abertura  se fecha.  Só então aí, que o Luís se deu conta de que estava totalmente fora do desfile. 
                         Voltou depressa pedindo licença, e empurrando todo mundo. Quem via de longe a cena, só via aquela bacia prateada por cima das cabeças do povo, balançando de um lado para o outro. Com muito custo chegou novamente na passarela, mas só que agora, quem  está desfilando é o Tiro de Guerra, e a banda já ia a uns cinqüenta metros à frente. Não tendo outra saída, o Luís entrou no meio do primeiro pelotão militar, com a meta de alcançar a Banda. 
                           Nunca se viu tanta gente nesta praça, como no dia de hoje para ver o desfile. As calçadas da ruas eram pequenas para conter tanta gente, de forma tal que o povo ia estreitando até a passarela do desfile. No pelotão militar, dava para se ver que um soldado marchando, quase esbarrava a mão no corpo do companheiro do lado. E infelizmente, este era o caminho que o Luís tinha que passar, para se juntar novamente à sua turma. 
                            E começou a correr, só que nesta corrida, sua tuba balançava muito e em seu movimento de vai e vem, começou a bater na cabeça dos soldados, e derruba o gorro de um deles. Este infeliz,  abaixou então rapidamente para apanha-lo. O colega de trás, não viu que ele tinha se abaixado, e em conseqüência tropeçou e caiu por cima, e aí outro, depois outro e começaram a se amontoar. A multidão, que adora ver o mal feito, começou a rir com a situação cômica que o nosso “musico” havia provocado. 
                          Nesta hora o maestro ouvindo a balbúrdia, olhou para trás e viu o Luís no meio do destacamento com a sua tuba, e os reservistas embolados no chão. Sua raiva foi tanta que seus olhos ameaçaram  sair das  órbitas, seus cabelos ficaram em pé e ele promete a si mesmo que o Luís não ficaria na Banda nem mais um minuto após o desfile terminar, mesmo que ele viesse a perder mil tambores vazios. 
                          Neste momento as autoridades que estavam no palanque, vendo o que acontecia, viram de costas para poder rir, e coincide exatamente com a passagem por eles do Pavilhão Nacional. Ninguém conseguia ficar sério  diante daquelas cenas. E o Luís continuava “arrasando” o desfile. 
                          Esta bagunça, acontecia ali em frente a loja Irmãos Pinto, e ali na calçada trepado em um caixote de lixo, estava o Jaci tendo a seu lado o Lira, e eram os únicos a não acharem graça da situação. Pois ali estavam para ver seu amigo desfilar e não se conformavam com os acontecimentos delineados. 
                           E como ato final, em sua pressa para alcançar a sua agremiação, Luís tropeça num fuzil caído e tomba para frente, se estatelando no chão. Aí então foi demais para os dois amigos que estavam ali ao lado, Lira e Jaci correm e levantam o amigo Luís, que está agora com os ombros machucados pelo pesado instrumento. Mas sua reclamação é outra:

--- O meu joelho... ele é que foi o culpado...

                           A Banda tinha parado, aliás o desfile todo tinha parado, quando se ouviu o barulho estridente da tuba no chão. E os músicos viraram para trás, e eles, inclusive o maestro, reconhecem os três personagens do dia da procissão.

--- São eles... aqueles três... vamos pega-los...

--- Por aqui, disse o Lira, puxando os dois e se infiltrando no meio da multidão, depois correndo para pegar o caravam que estava estacionado em frente ao Banco do Brasil. Com muito custo entraram no carro e quando este consegue sair, já estava começando a ser esmurrado pelos primeiros soldados, músicos e inclusive o maestro, que adoraria pegar os três e principalmente o desastrado Luís Paulo.


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