O Sonho do Luis Paulo
Uma frase bem definida ficou na cabeça do Luís, no dia da
Procissão da Virgem Maria, que acabou tendo aquele desfecho horrível: “Ainda
hei de tocar naquela Banda.”. E como de fato, por esta ocasião, era muito comum
encontrar o Luís andando na rua, assobiando um “dobrado” ou fazendo sons com a boca, imitando um
instrumento metálico. E quando percebia que ninguém estava olhando, aí ele até
exagerava um pouquinho, e marchava também imaginando estar dentro da formação
da nossa querida Banda de Musica.
E tanto fez disso uma ideia fixa, que o Jaci se condoeu e
tentava de todo jeito, ajudá-lo a realizar seu sonho. E um dia, aproveitando a
hora do almoço, o Jaci veio com Lira à
cidade para abastecer o carro. Ao
voltar para a fábrica, passando pela rua
Cinco, viram o chefe do Lira conversando com o maestro da Banda, na calçada
junto à sede da “furiosa”. Aí então, começou a tomar forma o sonho do Luís.
Disse o Jaci.
--- Você viu quem eu acabo de
ver, naquela rua?
--- Você não está vendo que eu
estou na direção?, como eu vou prestar atenção numa coisa que está em outra
rua?. Respondeu o Lira visivelmente de mau humor.
Todavia o pacato Jaci, que
sempre foi o pai da paciência e também bastante
acostumado com o temperamento do colega,
não importou com o tom da resposta,
e continuou falando.
--- Pois eu acabo de ver o seu
chefe conversando com o maestro da Banda. E como eu sei que você é muito
“chegado” ao homem, pode ser que você consiga colocar o Luís naquela Banda,
pois um pedido do “homão”, tenho certeza que o maestro não vai negar.
--- É... mas não é tão fácil
assim, não...
--- Como não é Lira? retrucou o
Jaci. E continuou num tom mais ríspido. Você acha que nós não sabemos que toda
segunda feira, você compra aqui no mercado um queijo para dar de presente a
ele, e fala que trouxe de Sorocaba?
Meio sem jeito e bastante sem graça, Lira respondeu.
--- Tá... tá... não precisa ficar
me agredindo não. Vou ver o que posso fazer.
E a sorte do Luís estava mesmo sendo lançada. Porque
naquele momento, ali defronte da sede da Banda, o chefe do Lira estava
comunicando ao maestro, que o pedido dele com relação à doação, por parte da
Iochpe Maxion, de tambores vazios, tinha sido atendido. E que ele podia desde já
promover a venda dos referidos tambores, como forma de arrecadar fundos para a
corporação. Como se pode ver, justamente por causa desta conversa, bastava
simplesmente aguardar até a próxima segunda feira, dia do queijo do chefe, para
que o plano então funcionasse.
E assim aconteceu, após o almoço, como de costume o Lira
foi até a sala do engenheiro, entregou o
presente rotineiro e fez o pedido. O “grande chefe”, para mostrar sua
satisfação com o presente recebido, pegou o telefone e conversou com o maestro
imediatamente. E a tão sonhada vaga na Banda,
foi arranjada.
Naquela mesma segunda feira o Luís se apresentou na sede.
Os dois amigos acharam por bem não comparecer ao ensaio da Banda, porque
tiveram receio de que a presença dos três, pudesse suscitar “lembranças
desagradáveis” nos componentes da sinfônica. E por outro lado, o maestro achou
que agradando ao Luís, ele estaria automaticamente agradando o engenheiro da
Fábrica. E com isso certamente, poderia estar representando mais tambores para
a campanha de capitação de fundos para a Banda.
Com esse pensamento então, recebeu muito bem o Luís e com um largo
sorriso, perguntou a ele qual o instrumento que ele gostaria de tocar.
--- Eu?!... eu... só sei tocar
baixo tuba. Respondeu o Luís, arriscando este instrumento, porque pensava ser
este, entre todos os instrumentos da corporação, o mais fácil para ele
aprender.
--- Pois não disse o maestro. E
gritando para o musico lá de trás. Juvenal!... ô Juvenal !... passa a tuba para
o Luís e vem cá para o bumbo, que o ensaio já vai começar.
Posições tomadas, o bumbo soou surdo: Bum!, logo em
seguida a caixa de guerra fez: pá... rá... te... Bum!, tornou o bumbo, e logo
os demais instrumentos entraram, começando a execução do Hino Nacional
Brasileiro. Mas o regente, que tinha os ouvidos bem aguçados, logo percebeu que um dois baixos, estava marcando
errado. E como bom observador, bastou olhar pro Luís que com aquele instrumento
enfiado no pescoço, tinha as maçãs do rosto se enchendo de ar justamente na
hora errada. Ali então estava o erro identificado.
Durante a semana
toda o maestro tentou ensinar o Luís, mas ele não conseguia aprender. E o
maestro só continuava insistindo porque
não queria perder os possíveis tambores a mais, que a sua presença podia
proporcionar. E mesmo a contra gosto, o manteve no grupo.
Chegou então o domingo tão esperado, sete de setembro.
Dia da Pátria. Dia de desfile. Dia do Luís. Dia do sonho do Luís. Já na
véspera, ele não conseguia esconder o
seu tamanho entusiasmo. Havia levado seu instrumento para casa ,afim de
limpá-lo e poli-lo. Fez sua esposa Da.
Mariinha lavar, passar e engomar seu
uniforme, que ele chamava carinhosamente de farda. Entretanto, este entusiasmo
excessivo não foi benéfico para ele, seu intestino bambeou de uma jeito, que
fez com que ele passasse toda a noite entrando e saindo do banheiro. Só melhorou
com a ajuda de chás e comprimidos, ministrados pela sua paciente esposa.
Raiou então o dia. E lá vem nosso herói pela rua Quatro
todo engalanado. Sapato preto que era um brilho só, calça azul e jaqueta da
mesma cor, mas com meia dúzia de botões dourados, verticalmente colocados no
peito. Nos ombros dois laços, que mais parecia duas condecorações militares.
Tinha seu instrumento enfiado no pescoço, e andava galhardamente, fazendo se notar por todos que encontrava na rua.
Vinha para o tão esperado desfile. Vinha todo feliz da vida.
O ponto de encontro combinado foi em frente ao antigo Cine Palácio. O Luís foi
o primeiro a chegar, somente uma hora depois, é que começaram a chegar os
outros músicos. E às dez horas, o maestro reuniu os músicos para a formação,
nesta hora então segredou baixinho no ouvido do Luís:
--- Luís, tira o bico do
instrumento e põe no bolso.
--- Mas... como é que eu vou
tocar?, perguntou ele.
--- Veja bem Luís... você ainda
não sabe tocar direito. E eu não posso correr o risco, de que você toque
errado. Alem do mais, ninguém vai ficar sabendo deste nosso acordo, pois isso
ficará só entre nós dois. Entendeu?
--- Mas...
--- Não Luís, definitivamente,
não. E depois... veja bem, você vai fazer tudo como se fosse realmente um
músico... e ninguém vai desconfiar de nada. Ok?
--- Tá né... o senhor quer
assim... e o nosso herói não teve como discordar...
![]() |
| O Luis Paulo é o musico que se vê somente o seu instrumento, nnesta foto. É o Baixo Tuba que se vê ao fundo |
Desta forma então,
começa o desfile. A praça estava repleta de gente. Todo mundo esbarrando em
todo mundo. O cordão de isolamento que a prefeitura tinha colocado, era
empurrado para afrente, e estreitava até mesmo a pista por onde ia passar as
agremiações escolares, a Banda e o Tiro de Guerra. E depois de um certo tempo,
chega então a hora da banda desfilar. Como havia somente duas tubas, porque a
terceira tinha se danificado com a bombinha “cabeça de negro” no dia da
procissão, o Luís foi colocado no final da formação, na ala esquerda, e a
outra, na mesma posição porem na ala direita. E a marcha vai acontecendo, com a
Banda descendo a rua Capitão Neco.
Numa visão geral, até que estava bonito o desfile, só não
se podia reparar no Luís, porque por causa do joelho encrencado, era o único
que ia com o passo errado. E tocando o Hino Nacional, logo eles penetraram na
região da praça, para o Luís era o
êxtase total. Seus olhos nem olhava para a partitura, porque alem de estar só
fazendo mímica com o instrumento, ele procurava pela Da. Mariinha que estava
ali em algum lugar junto com suas filhas, somente para vê-lo desfilar.
A
corporação agora passa debaixo do palanque das autoridades e segue. Quando
chega na esquina da prefeitura, a ala direita faz o pião e a formação muda de
rua, indo agora garbosamente na rua
Três. Foi nesta esquina que o Luís
encontrou quem ele tanto procurava, sua família. De longe seus olhos brilharam,
um semblante alegre se estampou em seu rosto, seu olhar então se fixou em sua
prole, e não mais saiu. Era o clímax total, sua família, ele com aquela tão
sonhada “farda” e seu bonito instrumento. A esta altura, ele passou a soprar
com mais força ainda para que ninguém
percebesse que não estava tocando.
Neste momento, o companheiro da frente,
obedecendo a marcação do pião direito, começa
mudar a direção, mas o Luís coitado, não percebe o que está acontecendo
e segue reto. O povo que estava no meio da rua, embora compactado, faz a
abertura e o Luís que não tirava os olhos da sua família, desgarra-se do resto
da corporação. Com a passagem dele, a abertura
se fecha. Só então aí, que o Luís
se deu conta de que estava totalmente fora do desfile.
Voltou depressa pedindo
licença, e empurrando todo mundo. Quem via de longe a cena, só via aquela bacia
prateada por cima das cabeças do povo, balançando de um lado para o outro. Com
muito custo chegou novamente na passarela, mas só que agora, quem está desfilando é o Tiro de Guerra, e a banda
já ia a uns cinqüenta metros à frente. Não tendo outra saída, o Luís entrou no
meio do primeiro pelotão militar, com a meta de alcançar a Banda.
Nunca se viu
tanta gente nesta praça, como no dia de hoje para ver o desfile. As calçadas
da ruas eram pequenas para conter tanta gente, de forma tal que o povo ia
estreitando até a passarela do desfile. No pelotão militar, dava para se ver
que um soldado marchando, quase esbarrava a mão no corpo do companheiro do
lado. E infelizmente, este era o caminho que o Luís tinha que passar, para se
juntar novamente à sua turma.
E começou a correr, só que nesta corrida, sua
tuba balançava muito e em seu movimento de vai e vem, começou a bater na cabeça
dos soldados, e derruba o gorro de um deles. Este infeliz, abaixou então rapidamente para apanha-lo. O
colega de trás, não viu que ele tinha se abaixado, e em conseqüência tropeçou e
caiu por cima, e aí outro, depois outro e começaram a se amontoar. A multidão,
que adora ver o mal feito, começou a rir com a situação cômica que o nosso
“musico” havia provocado.
Nesta hora o maestro ouvindo a balbúrdia, olhou para
trás e viu o Luís no meio do destacamento com a sua tuba, e os reservistas
embolados no chão. Sua raiva foi tanta que seus olhos ameaçaram sair das
órbitas, seus cabelos ficaram em pé e ele promete a si mesmo que o Luís
não ficaria na Banda nem mais um minuto após o desfile terminar, mesmo que ele
viesse a perder mil tambores vazios.
Neste momento as autoridades que estavam
no palanque, vendo o que acontecia, viram de costas para poder rir, e coincide
exatamente com a passagem por eles do Pavilhão Nacional. Ninguém conseguia
ficar sério diante daquelas cenas. E o
Luís continuava “arrasando” o desfile.
Esta bagunça, acontecia ali em frente a
loja Irmãos Pinto, e ali na calçada trepado em um caixote de lixo, estava o
Jaci tendo a seu lado o Lira, e eram os únicos a não acharem graça da situação.
Pois ali estavam para ver seu amigo desfilar e não se conformavam com os acontecimentos
delineados.
E como ato final, em sua pressa para alcançar a sua agremiação,
Luís tropeça num fuzil caído e tomba para frente, se estatelando no chão. Aí
então foi demais para os dois amigos que estavam ali ao lado, Lira e Jaci
correm e levantam o amigo Luís, que está agora com os ombros machucados pelo
pesado instrumento. Mas sua reclamação é outra:
--- O meu joelho... ele é que foi
o culpado...
A Banda tinha parado, aliás o desfile todo tinha parado,
quando se ouviu o barulho estridente da tuba no chão. E os músicos viraram para
trás, e eles, inclusive o maestro, reconhecem os três personagens do dia da
procissão.
--- São eles... aqueles três...
vamos pega-los...
--- Por aqui, disse o Lira,
puxando os dois e se infiltrando no meio da multidão, depois correndo para
pegar o caravam que estava estacionado em frente ao Banco do Brasil. Com muito
custo entraram no carro e quando este consegue sair, já estava começando a ser
esmurrado pelos primeiros soldados, músicos e inclusive o maestro, que adoraria
pegar os três e principalmente o desastrado Luís Paulo.


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